terça-feira, 9 de maio de 2023

Crash Magazine Review - Resenha de Bruxólico na Crash Magazine

(tradução da resenha para o português logo abaixo das imagens)


Crash Magazine Bruxólico Review


I could not be more happy do read this so positive review of my game Bruxólico. Again, like TCQ, the game received "A Crash Smash" stamp. Please support Crash Magazine on the link: https://fusionretrobooks.com/collections/crash-magazine








Resenha Revista Crash Número 15

páginas 44, 45, 46, e 47

Selo "A Crash Smash" (jogo predileto desta edição)


Bruxólico

Amaweks

Abril 2023


Influenciado pelo folclorista brasileiro Franklin Cascaes, que se especializou na cultura açoriana, Bruxólico presta tributo a histórias e mitos que muitos de nós na Inglaterra (e outros lugares) desconhecemos. É incorporando estas lendas que este revigorante jogo de ação com plataformas se passa na ilha de Desterro.


Nas profundezas de suas florestas repousa um amedrontador poço sem fundo. Além de toda a tralha que alimentava sua garganta através dos anos, todos os sentimentos maliciosos dos homens também descendiam em suas profundezas. Com o tempo este mal se acumulou e manifestações malévolas foram cuspidas para fora do poço em toda esta terra. Uma destas criaturas é o Boi-Fantasma, com chifres demoníacos e cascos que podem matar, mas ele é diferente: todas as demais criaturas o atacam. Então, ao invés de ceder à vontade das hordas, este improvável desterrado herói decide retornar ao poço e confrontar os semi-demônios que controlam a colméia infernal. (nota minha: na verdade ele não volta ao poço, e a ação acontece em paisagens terrenas da ilha)


É aqui que encontramos nosso anti-herói no começo do vídeo jogo, e ele tem de fazer seu caminho de volta ao poço. Bloqueando seu caminho há toda uma gama de seres malignos, e o Boi-Fantasma pode tanto chutá-los ou pular sobre suas cabeças. Muitas das telas são desafios de plataformas, onde saliências e abismos impedem seu caminho. O Jogo é dividido em capítulos contendo diferentes áreas do submundo, e batalhas contra chefes de fase (nota minha: o jogo começa dentro do poço, no "submundo" ou "extramundo", mas decorre em nosso mundo).


Há bastante variedade no jogo também, como seções com elevadores verticais ou alguma forma de transporte que se move no plano horizontal. Qualquer um familiarizado com o trabalho anterior do autor, TCQ, vai se sentir em casa com isto. O conto é segmentado em 3 partes, cada uma necessitando um carregamento independente do programa na memória para continuar a história.


Acompanhando o jogo há um livro lustrado ambicioso que conta a história da jornada do Boi-Fantasma. Apesar de traduzido do português a leitura está boa, e as ilustrações no estilo do ZX estão gloriosas. As surpresas não param ai; há também uma narração em arquivo de audio para escutar junto com o jogo. Este recurso não havia sido utilizado deste o igualmente ambicioso Deus EX Machina, de Automata.



Crítica


A primeira coisa que você vai notar em Bruxólico é que visualmente o jogo parece com um diorama, ou com um palco de teatro onde as pessoas da vila sentam e assistem. Nos tempos idos contos e lendas do folclore eram encenados por atores mambembes em pequenas comunidades.


Amaweks, também conhecido como Paulo A. M. Villalva, tem uma assinatura reconhecivel em seus jogos de ZX Spectrum. A gama completa da paleta de cores é utilizada para maximizar o efeito visual, e ele celebra o muito elogiado "recurso" que é o colour clash.


O mundo que ele cria é único e estilizado, com um excelente desenho de níveis (level design) com locações variadas. É um bom senso de progressão enquanto você se embrenha nas profundezas deste submundo (nota minha: engraçada a confusão que transformou a ilha em um submundo). O balanceamento entre a parte de ação e plataformas é perfeito, com nenhum dos elementos superando o outro.


Os vários estilos de jogabilidade de Bruxólico afastam qualquer sentimento de monotonia: uma área pode ser no padrão de se mover da esquerda para a direita, enquanto o próximo estágio pode ser uma plataforma móvel onde você tem de defender sua posição. Definitivamente o jogo lhe mantém em movimento e tentando adivinhar o que virá aseguir.


O livro ilustrado é um trabalho de arte e paixão: página após página transmite a paixão que Paulo tem por sua herança cultural. Seu ardor é ainda mais proeminente com os acompanhamentos de audio: onde ele narra com tal talento e convicção.


Gordon King.



Crítica de Paul (quadro vermelho):


Minha primeira impressão de Bruxólico não foi realmente de toda aquela excitação, pra ser honesto. Certamente, era divertido pular sobre a cabeça dos inimigos, mas depois de ser morto algumas vezes eu fiquei frustrado por ser mandado de volta ao começo de cada nível. Depois de um pouco de concentração eu pude passar por estes inimigos e alcançar o chefe do primeiro nível. Foi aqui que o jogo me ganhou. Chegando a este ponto pude realmente apreciar o que havia sido feito.


Nós temos um jogo dividido em três partes contendo 3 histórias diferentes e esteticamente muito agradáveis aos olhos. A paleta do Spectrum é utilizada de forma brilhante (ciano e magenta inclusos) e a trilha sonora prazerosa é acompanhada de efeitos sonoros muito bacanas: com o som do mar no começo da parte 3 me impressionando muito, sem mencionar o muito bem feito movimento de rolagem de cenário em camadas (parallax scrolling).


No conjunto Bruxólico é uma conquista impressionante, repleta de ótimos visuais, sons e aventuras onde se perder. Maravilhoso.




Quem foi Franklin Cascaes? (quadro com a fotografia do professor Cascaes)


Franklin Cascaes foi um folclorista brasileiro, escritor, e pesquisador que dedicou sua vida à documentar a herança cultural de Santa Catarina, uma região ao sul do Brasil. Ele coletou histórias, lendas, e tradições das pessoas da região e utilizou o material como base de sua pesquisa. Cascaes fundou o Instituto Histórico Geográfico de Santa Catarina (ver minha nota) que visava preservar a herança cultural, e estabeleceu um museu dedicado à história da cultura de Santa Catarina. Ele foi o escritor prolífico de mais de 30 livros, focados no folclore, mitologia, e cultura popular na região. Cascaes também foi um artista visual, incorporando o folclore e cultura da Ilha de Santa Catarina em suas pinturas e desenhos. Seu legado continua a ser celebrado e estudado por pesquisadores e entusiastas da cultura e folclore Brasileiro.



(Notas minhas: acrescento que Cascaes também foi um artista quee documentou a cultura popular mais especificamente da grande Florianópolis. Cascaes não fundou o Instituto Histórico Geográfico SC, a confusão dos resenhistas talvez se dê ao fato de sua ligação com o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC, e de sua obra lá preservada. Também não publicou mais de 30 livros, mas tem publicado mais de 30 contos nos dois volumes de O Fantástico da Ilha de Santa Catarina, e talvez daí a confusão. Mas honestamente, o mais importante, para estrangeiros a quem pouco importam nossas instituições locais, o que vale é que o Cascaes foi visto por eles com a devida estatura histórica e cultural. Acho que essa mentira involuntária perdida nas traduções seria com certeza celebrada pelo Peninha).




Comentários


Gráficos são unicos e mostram o máximo potencial de cores do Zx Spectrum. Som demonstra uma variedade de diferentes faixas de 128k durante o jogo. No geral, iesto é uma peça de arte de um autor apaixonado. Bruxólico é apresentado e polito até o nono grau (ao máximo). A versão física será "um algo" a se possuir.


Teclas: redefiníveis (parcialmente)

Joystick: Sinclar ou Kempston


Uso do computador: 91%

Graficos: 93%

Jogabilidade: 92%

Facildiade de iniciar 90%

Qualidades adictivas 93%

Média: 92%








Comentário meu a respeito da resenha: Eu fico realmente feliz com o jogo começando a ter algum reconhecimento como um trabalho autoral e único. Mas o que me deixou realmente saindo do chão foi esse quadro em Inglês com a foto e um texto falando da Importância de Franklin Cascaes. Quem poderia imaginar, que um jogo de videogame feito para um computador obsoleto de 1982, em pleno 2023, faria uma revista Inglesa de videogames, com tiragem impressa e também distribuição digital, estampar um quadro engrandecendo a figura do nosso querido e tão esquecido pesquisador e artista. Pois digo: eu imaginei, e este foi um dos motivos de realizar este jogo+livro. Por isto e ainda mais repercussão que virá. Cascaes agora é do mundo.






quinta-feira, 4 de maio de 2023

Arte Anacrônica e Tecnologias


Arte Anacrônica e Tecnologias

Arte Anacrônica é sobre se apropriar do tempo de forma crítica. É sobre se utilizar das ferramentas do presente e do passado sem cair em deslumbres tecnicistas ou nostalgias conservadoras. Abaixo um dos exemplos mais claros realizados pelo Luiz Souza:



"Não Existe Infeno não" - curta de Luiz Souza

Os experimentos em vídeo do Luiz Souza (veja outros em seu facebook) expressam um bocado do que estamos tentando dizer no manifesto da Arte Anacrônica (ver aqui). Mas elencando alguns pontos: Primeiro a imagem, que o Luiz produziu como uma pintura, e é carregada de simbolismos com a silhueta central e as portas ao fundo. Mas o quero focar é a parte do vídeo: acho que esse é um dos exemplos mais bem acabados do uso de técnicas anacrônicas para a criaçã ode um vídeo. O Luiz vem a algum tempo fazendo algo que eu só consigo ver quase como uma "edição de vídeo ao vivo", orgânica, e feita com recursos e equipamentos não só muitos simples e comuns, como até sucateados. O que ele faz é claramente é uma edição de um vídeo anacrônico.

Assistindo o vídeo fica claro o uso de recrusos como a trilha sonora, que é uma música tocando ao fundo no pc ou outro aparelho, e não uma edição pós gravação. Também fantástico e exemplar é o uso do recurso do interruptor de luz. O Luiz apaga a luz, reposiciona a camera do celular, acende, move a câmera, apaga, acende, e assim vai fazendo transições entre cenas. Com recursos que quase qualquer um tem em casa ele executa transições entre cenas, cria atmosfera e cortes na imagem ,criando assim dramaticidade e narrativa, mesmo filmando uma imagem que está estática. Ai é o ponto: a imagem está parada, mas não o Luiz, nem a câmera, nem a luz, nem o som ao redor.

Muito do que estamos tentando dizqer que é a arte anacrôncia está no procedimento tipicamente terceiro mundista, de se virar com poucos recursos. Basicamente, colcoaram nas mãos de toda a população ferramentas poderosíssimas, algo que pdoeriamos utilziar para criar cultura e consciência estética, social, ética, e inclusive de classe. Tirar estas ferrametnas de nossas mãos não é possível, por que elas são não só a grande mercadoria de hoje, como também o meio para nos manter "domesticados". O que é preciso é pdoar nossa imaginação, e não nos permitir exergar estas coisas como ferramentas.


Arte Anacrônica e as tais IAs?


Estes novos "aplicativos de automatização na criação de conteúdo" (conteúdo: palavra engraçada usada à exaustão nestes tempos de redes interneteiras), as tais IAs (sic), têm de ser encarados com um olhar crítico. Não significa cair em negação e não utilizar da tecnologia do presente quando ela for útil. Também nada tem a ver com o deslumbre técnico-midiático que sinceramente nos deveria soar passadista.

E por que digo que o deslumbre técnico-midiático devia nos soar nostálgico? Pq ele é de fato uma visão ideológica (no sentido de falso discurso, máscara da realidade) que ficou para trás no tempo. Ele vem de uma época onde o capitalismo ainda supunha prometer às pessoas uma técnica supostamente voltada para melhorar a vida dos seres humanos. os sonhos da ficção científica, de Star Trek, de uma evolução através da técnica. Desde Tatcher que isso caiu em desuso, mas as pessoas se prendem nessa antiga promessa por não saberem no que mais se agarrarem.

Mas retornando o foco à Anacronia. lembram dos tropicalistas, que não queriam se fechar para a novidade da guitarra elétrica, mas também não queria apenas imitar ou engolir a forma de tocar do mundo Anglo-Saxão? Eles então se apropriaram das novidades da época na música pop para criar algo novo, rico, crítico da sua época. Anacronia é parecido, mas as apropriações não são apenas no espaço, geográficas, originárias de outros países, mas no tempo, de outras épocas, sem negar o presente. isto por que hoje, nesse convívio mediado pela internet, as barreiras dos tempos, na cultura, estão se diluindo.

Novamente cito experiências literárias recentes do nosso amigo Luiz Souza, segue o link nos números que seguem o título: Literatura sintética e ideológica 06, 05, 04 (e outras em seu perfil)

A Arte Anacrônica, feita propositalmente assim e não apenas levada inconscientemente pela maré do tempo presente, também não se deixa apropriar tão fácil pelo discurso técnico-midiático. Pois quando mistura o velho com o novo, para assim comparar um olhar crítico sobre as "ondas" do momento. Parece irônico que seja a forma anacrônica a que possa, agora, comprar as experiências presentes com as de outros tempos. Exatamente o porquê eu não sei bem explicar, deixo a tarefa pro Luiz, perguntem pra ele. Só sinto também que apesar da urgência que sentimos nesse tempo maluco, a Arte Anacrônica não é tarefa para os apressados ou inconscientes.

E aqui coloco um ponto de partida a respeito de uma das grandes ondas do agora: muito da convulsão que estamos vendo no campo da cultura, de forma mais histérica entre gente ideologizada à extrema direita ou ávidas por comprar o discurso dos "liberais progressistas"(sic), está totalmente relacionada ao decadência do Imperialismo Norte Americano, que não vai cair sem fazer uma grande cratera. E isso nos leva para questões de fundo social e político que tem toda a relação com Anacronia.


Arte Anacrônica no mundo e no seu tempo


Eu conversava com o Luiz ontem, e concordávamos que a burguesia Norte Americana está dividida (como assim está no Brasil e no mundo), por que há claramente no mínimo dois projetos de capitalismo numa disputa interna. Como o Luiz sintetizou bem, de um lado democratas, rentistas de Wall Street e complexo militar, que vão tentar de tudo para segurar a ordem unipolar, mesmo que para tanto reativem a guerra fria, o que de fato estão tentando fazer. O dólar é seu grande castelo a ser defendido, e a fórmula da política neo-liberal de sempre seu método econômico. Do outro, a extrema direita que tem apelo com os trabalhadores por que fala em tornar a economia interna forte novamente, e é liderada por uma burguesia "menor", com figuras como Trump, que parecem já dar por certa a construção de uma nova ordem mundial multipolar e a ela querem se adaptar. Cada lado tem uma aposta de como superar a crise e dar sobrevida ao capitalismo, que está a muito tempo fazendo água e tendendo ao colapso.

É sobre essa disputa de fundo que nos é apresentada de forma bem difusa que vemos a burguesia também brigar em outros campos. Por exemplo, é a briga entre Microsoft (queimando a largada) com as outras BigTechs pelo poder e controle das tais IAs. É uma parte da burguesia, alinhada aos democratas, querendo regulação da internet (mas uma regulação aos moldes deles, apenas para seus inimigos, não se iluda), contra a parte da burguesia alinhada com o Trumpismo (Musk, Bezos, e algumas BigTechs).

O que no fundo queria falar com isso é que não dá de se apressar em entrar em nenhuma destas histerias, pq essa é mesmo a palavra que melhor descreve tudo isso: histeria. Na parte da guerra cognitiva a histeria coletiva virou regra, por que é a forma de mover as pessoas rapidamente em uma direção sem que elas parem para pensar. Essa coisa do excesso de informação da internet funciona que é uma beleza para operar isso. Á de fundo briga de cachorro grande.

É por isso que eu, e sei também que o Luiz, e alguns outros amigos artistas, focamos em fazer uma arte crítica. Nesse cenário, e na internet, especialmente dentro das tais redes sociais, nós somos praticamente impotentes, dados moldados pelo tal algoritmo. Basicamente, escrevemos e teorizamos sobre Anacronia por que se não o fizermos ninguém fará por nós, mas também o fazemos para manter a mente lúcida. Acredito que é apenas fazendo nossa arte que podemos pelo menos contribuir para que o campo estético não se deteriore completamente no meio deste turbilhão. Pois nesse exato momento, o mundo e a geopolítica estão se reordenando completamente, e isso afeta a tudo, até o campo estético.