Tive um retorno nas redes sociais de algumas pessoas que leram o último texto, onde pontuo alguns problemas pensando especificamente no uso de IAs na criação de jogos. Isso me deixou aqui pensando, e queria então ampliar mais alguns pontos, mesmo que eu não tenha ainda como aprofundá-los.
Consumir e ser consumido
Produtor de conteúdo?
Essa internet das plataformas digitais (redes sociais, streaming, YouTube, etc), que vivem da economia da atenção, popularizou o tal termo "produtor de conteúdo". Que numa ironia perversa, como muita coisa desse mundo digital, na maioria das vezes pouco tem a ver com conteúdo, e mais com entretenimento voltado à dopamina barata para reter a atenção. Em geral, vídeos virais têm muito pouco de conteúdo.
Produto humano?
Não no sentido do resultado da produção humana, mas do ser humano como o produto a ser explorado. Já se fala bastante disso faz algum tempo: você, usuário das redes sociais, é que é o verdadeiro produto. As plataformas exploram sua atenção, retêm ela, mineram seus hábitos, e isso é transformado em dados que são monetizados pela empresa no mercado digital. É importante ter isso em mente para pensar a seguir sobre quem está produzindo utilizando as IAs.
Produtor ou Consumidor?
Vi há pouco um corte de um destes CEO's de empresa de IA dizendo em algum evento algo como "que as pessoas devem seguir suas paixões, como eu, que sempre amei música, e agora posso criar verdadeiras obras com a IA SSSS". Ver isso me deu um estalo na cabeça, de como a pessoa que vai lá fazer um prompt na IA, acreditando ser autor de algo, está na verdade numa relação de consumidor e de produto, mascarada pela ilusão de ser produtor. Mas retomaremos isto.
Nivelando por baixo.
Toda essa cultura das plataformas nivelou por baixo o que seria "criar conteúdo". O tal "conteúdo" pode ser vazio, desde que viralize por motivos de retenção da atenção. Qualquer coisa agora é chamada de conteúdo, desde que seja "viral" ou se proponha a tentar o ser. Entendem como o que é "produzido", em especial em termos estéticos, pode ser de muito má qualidade, e ainda assim as pessoas aceitarem? Nós já temos sido "educados" (ou deseducados, se pensar bem), a aceitar e gostar de algo num nível muito baixo.
Educação (deseducação).
Tenho claro o seguinte: existe uma tendência articulada e impulsionada de generalizar as imagens, vídeos, e músicas de IA, para assim construir um senso estético que considere ao menos "palatável" esses produtos (des)estéticos como algo agradável. Não é novo, por exemplo, que a indústria do cinema cria sensibilidade imagética nas pessoas, e direciona elas para o tipo de produto que eles consideram mais rentável e barato de produzir. Essa tendência deve se aprofundar. Também, isso será para "as massas", claro, para os filhos dos ricos, arte de verdade, imagina se não.
A IA genial.
Senso estético nivelado por baixo, conceito de inteligência esvaziado de sentido filosófico ou mesmo de sentido qualquer que não seja algo utilitarista, e assim temos o ambiente social onde a IA parece muito genial. E para aquele que utiliza a IA como varinha de condão, aquele resultado menos que mediano pode parecer algo extraordinário.
O verdadeiro produto I:
Quando você cria uma música com IA, não é o resultado que é o produto. O produto ainda é a IA, que está sendo vendida para você, e também uma ilusão (quem lembra da frase "a fábrica de ilusões"?) de que você está criando algo extraordinário a partir de sua cabeça por ter inserido um prompt. Essa ilusão é parte importante do produto, e a sua relação ali é a de consumidor, não de produtor.
O verdadeiro produto II:
Assim como nas demais plataformas sociais, você é também um produto a ser explorado, mas não é o cliente deste produto. A IA está coletando dados seus, seus hábitos, e o que está na sua cabeça literalmente, para transformar isso em algum outro de capital para as Big Techs: seja bancos de dados para propagandas ou mesmo dados valiosos para otimização da própria IA. Nós, que usamos a IA, somos também o produto.
Arte Independente em tempos de IA
Amigos Artistas
Nesses dois ou três anos de uso de IA "degenerativa", queria tbm chamar atenção de meus amigos artistas, em especial músicos e produtores culturais, que eu tenho visto fazer algo muito estranho (eu acho estranho).
Agora sendo bem direto com meus amigos músicos:
Meu amigo músico, em especial os independentes e autorais, você vai lá, trabalha duro e de coração na sua criação estética, para compor, arranjar, ensaiar, tocar. Mas chega na internet, e gera imagem brega para cartaz de show, ou para "capa" de single e música de trabalho. Eu às vezes me pergunto: meu amigo entendeu alguma coisa do que é criar arte? Por que se sim, como ele pode estar fazendo isso?
E antes?
Antes das IAs (ontem), ninguém conseguia criar cartaz para um show? Não conseguíamos, de forma independente e sem grana, criar capas para os nossos singles, músicas de trabalho, álbuns? Eu sinto de verdade, e tenho reparado reação semelhante em outras pessoas, zero vontade de conhecer sua música quando você a divulga com uma imagem de IA. São imagens todas iguais, bregas, e de má qualidade em termos de composição
Mais um prego no caixão das trocas comunitárias:
Esse mundo das "redes sociais", ironicamente, ou não, atomiza ainda mais o indivíduo e dificulta os elos sociais. É mesmo o sonho socioeconômico do neoliberalismo, que nesse sentido venceu depois de algumas décadas. Meu amigo músico, antes para ter uma capa ou cartaz legal era preciso exatamente isso: estreitar laços sociais. Era preciso criar cena, e no caso da música, ela ia muito para além: envolvia outros artistas e produtores culturais. O uso de IA dessa forma por independentes deve reduzir ainda mais esses laços e inviabilizar ainda mais a criação de cena e trocas comunitárias.
A IA está aí e não deve ir embora, mas...
...mas nós que trabalhamos com cultura, em especial quem vive para sua arte, não precisa usar ela para tudo, em especial para trabalhos criativos. Tudo bem, se você precisa usar no trabalho, no seu ganha pão, eu entendo. Se isso vai durar muito, eu não sei dizer, acho que não, o futuro é o desemprego e falta de sentido ainda mais massificado.
Mas se você é músico, e faz sua arte por que precisa para sua existência, por que é uma necessidade humana sua, não faça imagem brega de IA. Converse e faça trocas com outros artistas, como sempre fizemos. Faça mais devagar, não precisa ficar noiado com a loucura da produtividade que vivemos hoje. Já não basta isso no seu trabalho de ganha pão.
Se você faz qualquer outro tipo de arte, vale o mesmo. Não gere músicas sem alma na IA. Converse com músicos, tente criar laços de comunidade, cena. Ou faça do seu jeito, mesmo sem ser profissional, que vai ser muito mais interessante, além de honesto consigo mesmo.
Um apelo: não nos desumanizemos ainda mais!
Esse mundo já nos desumanizou um bocado nas últimas décadas. E não parece que isso esteja mudando, a tendência parece ser ainda uma aceleração disso. Digo sem vergonha alguma: se os nazis fizessem de forma aberta e declarada o que o estado de Israel faz com Gaza e os palestinos hoje, naquele tempo, as pessoas ficariam mais chocadas do que agora.
Os registros históricos pelo menos nos dizem que lá na Segunda Guerra Mundial eles tentaram esconder a barbárie que cometiam, e tudo veio ao grande público mundial apenas porque a Alemanha perdeu a guerra. Já hoje, está tudo às claras, e poucas pessoas, poucas vozes, parecem realmente se importar com o genocídio em curso (em curso há algumas décadas, diga-se sem medo de errar). Não por acaso, genocídio que tem todo o auxílio destas mesmas empresas donas das IAs.
Eu falo tudo isso como alguém que fez uma opção de vida pela arte. Eu poderia ser bancário, ou tentar seguir como professor, mas sabendo que seria sempre um pobre, duro, sem grana, pé rapado, eu tenho vivido como artista. Trabalhar num escritório de dia, e ter uma horinha para fazer arte à noite não era nem de longe o bastante. E para mim, arte é algo que precisa ser vivida de forma integrada na vida do artista. Eu sou um artista enquanto respiro, não aos finais de semana. Nada contra quem viva assim, até porque eu não aconselho seguir a minha escolha, mas eu a fiz consciente e porque não estaria vivendo em paz com minha consciência de outro jeito.
Eu vivo arte, de verdade, não é frase de efeito. E se tem algo que ainda pode nos servir de boia de salvação como seres ainda humanos, é a arte, o fazer estético humano. E até este espaço está sendo reduzido. Por isto, meu apelo.