quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Lourenço Mutarelli... problema do hermetismo nos games independentes

Esse cara fala coisas interessantes, recebe boas críticas (críticas de quem também me interessa), bateu uma curiosidade de ler as HQs dele. Aqui, duas entrevistas muito interessantes, No programa Provocações, em 3 partes, e no programa Matador de Passarinho:





Agora um ponto que já a muito tinha me interessado na fala do Mutarelli, que perguntado pelo Abujamra sobre as diferenças entre os quadrinistas Brasileiros e Argentinos, responde (e talvez eu já tenha abordado algo semelhante antes):

"Eu acho que o embasamento, acho que quadrinista na Argentina lê livro também, vê cinema, vai ao teatro. Quadrinista no Brasil, 90 por cento só lê quadrinhos, eles não expandem esse horizonte".

E toca no assunto novamente na entrevista com o Skylab:

"Os quadrinistas...eles só se retroalimentam, precisa dar uma oxigenada"

Isso sempre me faz pensar sobre os games, em especial a produção independente. A produção independente trabalha um pouco mais à margem da grande indústria (não totalmente fora), e semelhante às margens de outros linguagens narrativas e estéticas, sempre produz com pouca grana. É geralmente nesse meio independente, e que tem de compensar o baixo orçamento de produção de alguma forma, que surgem ideias e experimentações que fazem a linguagem dar alguns saltos qualitativos e explorar sua potencialidade e particularidade.

Mas algo que me incomoda muito na cena de games independentes é esse hermetismo dentro do próprio meio. Quem produz estes games é gente que consome, na maioria das vezes, apenas games e seus subprodutos (literatura sobre e a partir de games, mangás sobre seu game favorito, filmes relacionados a games escrita por Ghost Writers, etc...). No máximo, fora disto, se consome filmes Blockbusters e de super heróis.

Não me entendam mal: não falo por nenhum tipo de elitismo, nada contra você consumir estas cosias, das quais eu inclusive também me alimento, e as quais dialogo com toda e qualquer outra referência cultural que eu tenha, sem pudor. A questão é que a galera que faz games hoje se alimenta essencialmente de games e só. Tudo bem em você fazer um game de plataforma que faz citação ao Mario Bros. Mas precisa ser só isso?

Por que não dialogar a referência do Super Mario com algo da literatura, do cinema, do teatro, da música? O pessoal se esquece, ou não percebe por falta de referências, que muitos games do passado (forte inspiração para a cena independente) dialogaram referências da música pop, de filmes como Blade Runner (Snatcher), Total Recall (Flashback), filmes de terror B e literatura de mistério e terror como de H.P. Lovecraft (Castlevânia), ainda literatura como Don Quixote (Ghouls and Goblins), e outros que não sei ou não lembro (se você souber de algum, ou tiver qualquer palpite, deixe um comentário). estas referências nem sempre precisam, e talvez nem devam, estar explícitas, mas elas sempre enriquecem o tecido da experiência visual e narrativa.

É aquela coisa, a sorte de um George Lucas é que ele foi influenciado pelo Akira Kurosawa e pela geração de 68. O Azar de um J.J. Abrams é que ele foi influenciado pelo George Lucas (li algo assim em uma boa crítica, das únicas não ufanistas e nostálgicas, do último filme do Guerra nas Estrelas, achei que era nesta resenha de José Geraldo Couto, mas talvez não, perdi a referência).

Mas, claro que temos de vez em quando bons exemplos, tem gente articulando outras referências, e não é a toa que dai saem bons games independentes. Um que que ocorre agora Maldita Castilha, que dialoga referências medievais da "Castilha", Espanha, do game Ghouls and Ghosts, e talvez não por coincidência, Don Quixote, como mencionado nesta resenha.

Screenshot do game independente Maldita Castilha

Nó gamers, em especial os que produzem games, precisamos também dar uma oxigenada.

Se você anda pelo mundo dos games, e sabe de outros games clássicos, e independentes de hoje, que articular diferentes referências culturais (para além do mundo dos games), deixe um comentário.




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