quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Mais reflexões sobre "IAs" (sic)

É inevitável, é o assunto do momento, e todos os dias a gente compreende melhor os limites e os impactos sociais, estéticos, políticos da introdução destas ferramentas de geração automatizada de textos, imagens, audios, vídeos que a indústra e os ideólogos do Vale do Silício chamam de "Inteligências Artificiais". Recentemente dois postos do meu amigo Luiz Souza (links nos títulos de cada comentário) me fizeram escrever dois comentários a respeito do tema.




Jason e os Argonautas

Esses softwares de automação na criação de frames intermediário, para aumentar a quantidade de frames de um vídeo, já existem a alguns anos, e tem algumas cosais que me incomodam nisso. Não na ferramenta em sí, que certamente pode ser utilizada de forma criativa, mas nesses exemplos que já povoam a internet, tipo esse de Jason e os Argonautas que eu já conhecia, e vou explicar melhor.

Pra além de qualquer nostalgia com o original, primeiro tem o fator de preservação histórica, e nisso eu me lembro do que o George Lucas fez com sua própria trilogia do Star Wars, alterando ela de acordo com as décadas e com as novas sequências e tecnologias dos anos 2000. Nada de tão novo, se pensarmos que quantos livros eram revisados em edições subsequêntes? Mas geralmente com fins de melhorar a tradução, contextualziação, mas digamos que tbm alteração do texto.

Mas na linguagem do cinema ja é mais problemático quando o cara muda atores em cenas, etc. Por conta da forma de como são distribuídos os filmes no mercado do cinemão de hoje, as cópias originais de Star Wars quase se perderam, não fosse o trabalho recente de fãs que escanearam em alta resolução a partir das películas originais do cinema (conseguiram rolos de filmes originais da época, várias cópias dos mesmos filmes, para assim fazer um trabalho de digitalização e reconstrução do original que o Lucas, ou a Disney hoje em dia, não fizeram).

Segundo, tem uma coisa de "impressão" causada pela técnica que se perde. Se eu vejo um stopmotion a 20, a 15, ou até a 10 frames por segundo, ele me impressiona muito mais do que um vídeo a 120 frames gerado por "IA"(sic), ou "reescalonado" de 15 frames para 120 por um software desse tipo. E pra além de preciosismo, tem algo aí que se perde na linguagem quando aquelas imagens deixam de impressionar tecnicamente tbm, e isso leva ao meu terceiro e último ponto.

Quando a gente assiste a um filme, não necessariamente buscamos "o real", ou um simulacro da realidade pra ser mais exato. Por exemplo, se eu vejo que o negócio é feito com stopmotion, fica claro para mim que aquilo é um trabalho de arte, humano, que é fruto da imaginação e não do real, mesmo que eu não conheça as tecnicidades portrás da produção. Essa tendência já de anos, e mais e mais comum na sensibilidade das pessoas, de mascarar a origem ficcional no cinema no quesito da imagem, de querer ser "mais real que a realidade" com os efeitos especiais, eu vejo tbm no videogame moderno. Então algo, e não pouco, do que tem de linguagem estética nessas mídias se perde ao se ignorar que elas não são a realidade, mas sim um filme ou um game, um espaço de "excepicionalidade" e quebra no cotidiano (ou pelo menos já foram um dia).

Quando Magritte pinta aquele quadro retratando um cachimbo com a frase "isto não é um cachimbo" escrita logo abaixo, ele deixa óbvio, aquilo era uma pintura de um cachimbo, não um cachimbo em sí, no máximo um "ìdice", uma indicação, que remetia a um cachimbo. A pintura então havia finalmente se libertado da sua obrigação retratista, em grande medida graças ao avanço técnico da fotografia. A indústria do cinema, e a do videogame também, vão na direção oposta, tornando seus produtos cada vez mais pobres como linguagem.

Mas quem liga? Afinal, a intenção é girar capital, não fazer arte.



O Músico de Rua na Argentina

O luiz repostou e fez uma boa descrição do que se trava o vídeo que me despertou uma reflexão sobre o simulacro de inteligência das tais "IAs"(sic):

"Reprodução, por meio de instrumentos analógicos não convencionais, de timbres originalmente criados por meios de instrumentos eletrônicos.

A música do século 21 está nascendo aos poucos.

E vem da rua. Vem de baixo. Vem do lixo."

Eu logo me peguei a pensar no distanciamento, em direções opostas, entre Inteligência humana e isso que hoje o mercado tem chamado de "Inteligência Artificial", o quanto elas vão em direções opostas quanto á questão de "retro alimentação", ou "feedback loop" como tbm chamam.

Em matérias recentes os engenheiros de "IA"(sic) tem demostrado preocupaçao com o problema gerado quando esses softwares se alimentam de conteúdos gerados por elas mesmas (leia algo aqui). Pq o que esses programas realmente fazem é manejar através de algoritimos matemáticos um banco de dados gigante de imagens, textos, etc, criados inicialmente por seres humanos, e vir com um resultado, uma "média" matematicamente calculada, que é a imagem, texto, filme, resultante. Mas quanto mais as tais IAs(sic) são alimentadas com conteúdos geradas por elas mesmas, os resultados vã ose degradando. Testes já realizados preveem que a coisa pode se degradar ao ponto de os resultados não terem mais nenhum sentido e se chegar a imagens como borrões, textos sem pé nem cabeça, etc. Comforme a Internet comece a ser povoada por imagens geradas por filtros e IA (e isto já está em um processo sem volta), esse desfecho é inevitável.

Já Inteligência humana vai no sentido contrário, e quanto mais ela se alimenta de sí, das criações humanas de todo o mundo, mas ela se complexifica. Esse exemplo acima é interessante por que ele tem essa relação com a tecnologia. Quando os pioneiros da música eletrônica criaram aqueles sons com sintetizadores nos anos 60 e 70, aquilo era um negócio "de outro mundo". Eram sons muitas vezes sem paralelo com instrumentos ou sons já existentes.

Veja só, resultado do ser humano manejando de forma criativa novas ferramentas tecnológicas. Isso abriu um campo de um gênero, e muitos sub gêneros, de música eletrônica (incluindo a música de videogame com a qual eu sou familiarizado e inclusive componho pra meus jogos). Num movimento seguinte de "retro alimentação", agente vê algo como este músico de rua, que se utilizando de sucata, de lixo, recria estes sons que só foram possíveis de existir a partir da música eletrônica, mas agora de forma analógica, física e mecânica, não eletrônica ou digital.

Percebem como uma coisa vai em uma direção de ampliar a complexidade, e a outra na direção oposta? Como a tal "IA" se distancia de qualquer simulacro de inteligência, quando ela é deixada "sozinha", literalmente autônoma, apartada da criatividade humana que existe em seus banco de dados? Já a inteligência humana, que nós ainda mal compreendemos como funciona, é só se complexifica quanto mais ela se alimenta de si (e de outros humanos).

E tem grandes capitalistas e seus ideólogos que querem nos convencer de que o que eles criaram artificialmente são "inteligências". O que eles criaram foi na verdade uma grande concentração de dados, muito a par da grande concentração de capital em nosso mundo (é um reflexo da desigualdade social), e tecnologia matemática/computacional para gerir estes dados.







sexta-feira, 10 de novembro de 2023

A Polêmica do Jabuti e a IA

Tava aqui trabalhando em meus projetos e refletindo a respeito da tal polêmica do Prêmio Jabuti, que premiou a capa de uma nova edição de Frankenstein, que foi produzida utilizando estas ferramentas de IA:

Em tempos de IA, talvez nosso foco deva ser não no consumo de arte, mas na sua produção. Quero dizer com isso, que nosso exemplo (nós Artistas Anacrônicos) não é apenas a respeito de uma estética de "o que fazer", ou "que formas utilizar". Não, é também um chamado para que as pessoas façam arte. Agora percebo que isto já estava no Manifesto da Arte Anacrônica, de 2022, mas eu não tinha toda a clareza e síntese que tenho agora.

Pq a "arte" de consumo de massas vai ser toda produzida por marqueteiros utilizando programas de automação (as tais IAs, nome mais que inapropriado preciso frisar). Vai ser um mundo onde apenas consumir arte, na maioria dos casos, não vai ser um ato de humanização. Não é consumir arte que vai dar autonomia ao ser humano, ainda mais esta na forma de entretenimento barato, e que terá o potencial de humanizar as pessoas em um mundo que tende a desumanisar-las. Mas o que tem potencial de humanisar é produzir arte. E hoje as ferramentas para se produzir arte estão ao alcance da maioria de nós.

Eu sei que a vida é corrida, que o tempo é curto, que é preciso pagar as contas, etc. Mas não se preocupe, no capitalismo decadente vai ter cada vez menos emprego pleno para todos, e cada vez mais gente vai ter tempo livre. Então, vá atrás das referências do passado, quando se produzia arte humana para humanos, e produza. Também publique, não para seguir carreira de artista se não é a sua, mas pq isso lhe humaniza, e só isso vai lhe humanizar no século XXI, não assistir série de streaming seja com a boa intenção que for. Produza seu game, produza suas pinturas, produza sua música, produza seu filme, e não fique preso aos critérios de "qualidade" (sic) da indústria.

Engraçado, eu sempre fui nessa direção, desde que me lembro, produzindo tudo de forma caseira, e incentivando quem eu pudesse a fazer o mesmo. Foi minha principal postura e trabalho como professor de artes, e eu segui esse caminho. Agora está claro que o método anacrônico, e aestética anacrônica, é um chamado à produção de arte não só por artistas, estetas, pessoas que queiram dedicar sua vida à arte, mas sim a todas as pessoas que queram sentir esta sensação de estar dando significado humano aos signos que ela opera, dando significados seus. Não será possível fazer isto com a sopa (pra não dizer churume) que vai sair de IA.

O Manifesto da Arte Anacrônica foi redigido pelo Luiz Souza e saiu de uma reflexão coletiva realizada pelo Grupo Gang do Lixo, do qual eu tbm faço parte. Baixe o manifesto aqui: https://revistadaanacronia.blogspot.com/2022/08/anacronia-n-1.html




sábado, 4 de novembro de 2023

Entrevista e resenhas recentes em revistas estrangeiras


Saiu a nova edição da Revista Inglesa Crash, e nela tem uma entrevista de 6 páginas comigo, e mais uma resenha de 2 páginas de O Purgatório de Virgílio. Aproveito aqui já pra colar também a matéria sobre o Bruxólico que saiu na revista Argentina Replay, e mais algumas publicações anteriores que eu aidna não tinha escaneado e compartilhado no BLog.

Assim que possível, semana que vem ,devo adicionar as devidas traduções para o português.


Entrevista para  Revista Crash (UK)
   


Resenha Bruxólico na Revista Replay (Argentina)



Resenha Virgil na Jogos 80






Entrevista para a Revista Micro Sistemas








Resenha de TCQ na Revista Crash





Premiação GOTY Planeta Sinclair e Museu Loading







quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Gótico Ilhéu

Não, eu não vou falar do seu sobrinho ou sobrinha que se veste de preto e usa maquiagem pesada, eu quero falar é de outro gótico, da literatura e poesia, com Edgar Allan Poe, Baudelaire, Cruz e Souza, das artes visuais com Odilon Redon, Blake, e tantos outros.

Recentemente meu amigo Luiz Souza publicou uma série de postagens no facebook repercutindo o "dia das bruxas" e a nossa relação, aqui em Florianópolis, com esta simbologia, ou pelo menos as relações que poderiamos tecer de forma criativa e original (Links das postagens no final do texto)

Dentre estas postagens tem uma que fala da necessidade de se entender e utilizar do horror na arte como forma de crítica social. A postagem original do perfil www.instagram.com/agitprop.arg/ define e chama este uso de "Marxismo Gótico". Diz como é preciso não ser "estraga prazeres", e por exxemplo no lugar de já saindo taxando o tal haloween como imperialismo cultural é preciso absorver e fazer uso destas referências no trabalho e estético crítico.



Postagem de @agitprop.arg


Eu compreendo interpreto isto como uma chamada a evitar a caretice cultural em geral muito pequeno burguesa recorrente na esquerda, em especial nos setores mais metidos a "progressistas" e que flertam muito com o liberalismo. O que os Argentinos da postagem falam podemos entender como o ato de antropofagizar toda esta cultura de horror, e se utilizar dela, criando uma arte original e que pode se classificar como "Gótica". Não se trata de maneira alguma de macaquear o estrangeiro, ou seja reproduzir esta cultura que emana do centro do capitalismo de forma acrítica, não.

E aqui entramos nós, que vivemos nesta "Ilha da Magia", ou "Ilha das bruxas" como dizem os slogans, graças a um certo uso e recorte a partir da obra de Franklin Cascaes e Peninha. As elites locais se esforçam, e tem muito sucesso, em sequestrar a iconografia das bruxas que vem do Cascaes e do folclore popular de base açoriana, a colocando a serviço de seus interesses econômicos. Isto significa que devemos então abrir mão do Cascaes? Eu penso que muito pelo contrário.



Bitatá - Cascaes - 1970


Cascaes e Peninha

O Cascaes e todo este folclores tem de ser reinvidicados de forma popular: O Cascaes é do povo. No lugar da caretice (sim, é uma caretice) da esquerda em abandonar a obra do Cascaes, ou mesmo as referências folcloricas dos antigos colonos Açorianos, por estas já estarem nas mãos dos poderes econômicos, é preciso reinvidicar eles. É preciso destacar seu caráter popular e averso ás relaçoes individualistas do capitalismo, seus valores burgueses de praticidade financeira onde o "tempo é dinheiro", todo ele 24h por dia nesta era digital. E como se faz isso? Usando destas referências, criando nova arte que se inspirem nesta riqueza, realçando seu potencial de crítica social. Não adianta só falar no Cascaes, tem de criar arte a partir dele, "subir no ombro de gigantes", colocar em circulação do jeito que der, "ativar" um Cascaes popular, sem pedir benção a ninguém, ninguém.

A outra caretice, de cunho ainda mais carola e boboca, é a de negar o Cascaes por sua obra mítica ser muito "negativa". Por que a bruxa do Cascaes não tem nada de wicca, de "bruxa boa e de luz", ou qualquer outra baboseira de classe média pequeno burguesa. A Bruxa do Cascaes é o horror, é a bruxa da exploração imobiliária, com os pés gigantes de edifícios que pisam sobre as casas dos pescadores mudando toda a paisagem da cidade. Assim são outras criaturas, os múltiplos boitatás, o Congressso Bruxólico, a "comunicação telebruxólica" dos fios de telefone, etc. O mesmo deve de aplicar à obra do Peninha, que além de grande divulgador do Cascaes tem uma infinidade de trabalhos belíssimos ainda a serem descobertos e expostos ao público, mas para tanto é preciso estaestar acessível ao povo, assim como a do Cascaes. Tudo esse material já devia, numa época com oa nossa, estar digitalizado e facilmente acessivel a qualquer um, mas sabe como é né.


A Bruxa Grande - Cascaes - 1976



Gótico Ilhéu e exemplos Contemporâneos

Uma coisa que fica claro a partir dos contos do Cascaes, que recolheu relatos dos moradores antigos dos povoados da ilha, é que esse horror era parte da vida das pessoas. Imaginem, morar numa ilha, sem luz elétrica, ouvindo tudo que é barulho estranho vindo do mar e do mato? O horror está na nossa índole. Me lembrou bem o Luiz Souza estes dias, em conversas, do filme "A Fêmea do mar", do cineasta Ody Fraga, que nasceu nesta ilha mas é pouco lembrado, e neste filme dialoga o horror do isolamento de forma psicanalítica. Mas falemos de exemplos atuais:


Luiz Souza: artista e crítico que experimenta escrevendo contos, poesia, pinturas, vídeo montagens, entre outros trabalhos, meu amigo de longa data que também já colaborou em alguns trabalhos meus, e colega na Gang do Lixo e redação do Manifesto da Arte Anacrônica (leia aqui). Os contos que o Luiz publicou em seu blog (link no final) tem essa coisa, um pouco de ficção científica, distópica e até apocalíptica, mas também um teor gótico de horror. Ele tem realizado também uma série de pinturas que exploram esse horror fantástico do Gótico Ilhéu, e que tem publicado em seu perfil do facebook. Como crítico o Luiz fez uma observação muito interessante sobre a relação entre o Bode de Mendes e a ilustração do "Bitatá", do Cascaes (imagem mais acima), que está no livro de contos "Treze Cascaes" (link da postagem do Luiz falando disto também lá em baixo).



Nascimento de novo mboitatä no Extramundo de Matárius - Luiz Souza



Carlos Casotti: tatuador e ilustrador que eu descobri a pouco tempo e mostra seu trabalho no Instagram: www.instagram.com/pppseudonym/ . Ele tem feito um diálogo íntimo com a obra e a estética dos desenhos do Cascaes, aprofundando seu teor de horror e surrealismo quase psicodélico, com uma influência da cultura punk, me parece. Eu preciso acompanhar mais e em algum momento comversar com ele pra entender melhor seu trabalho, mas está certamente é uma forma de Gótico Ilheu e faz um uso interessantíssimo da obra do Cascaes.



Carlos Casotti - Creatures Of The Island: Instead Of Death... They dared to choose Life. Civilization feeds on Death. Dare to differ.



Amaweks: sim, eu quem vos falo, por que sei bem do meu esforço nesse sentido. Eu tenho misturado o horror com criaturas excentricas meio "fofas" de videogame japonês já a alguns anos. É assim no Golem de Devwill, jogo inspirado no cinema de horror preto e branco, em especial o Expressionismo Alemão. Também no personagem Homunculo de Devwill Too, diante do horror romantico existencial. E agora mais ainda em Bruxólico, com o Boi-Fantasma, uma mistura de Boi-de-mamão, do folclore locaol, com o cornudo celta e o fantasminha de Haloween. Eu, por exemplo, me aproprio da crítica a exploração imobiliária do Cascaes a atualizando e tecendo meus comentários sociais e políticas, isto em uma mistura de videogame e livro ilustrado. Apesar da mistura de uma linguagem de videogame e de livro ilustrado infantil, é uma leitura direcionada tanto para adultos quanto crianças, ou assim eu penso.



Fragmento do Livro Ilustrado Bruxólico - Amaweks


E devem ter tantos outros por aí, volta e meia a gente esbarra com algo na rua. Fato é que existe uma tradição de "magia" na arte desta ilha que não se resume a slogan ou emoção efêmera, mas de horror do desconhecido ou incontrolável, e que pode ser apropriada tanto por um discurso conservador, mas também, felizmente, por um discruso crítico.


Links adicionais:

Luiz Souza:

Marxismo Gótico

Desterro é o único nome que pode definir a experiência real desta ilha...

Cascaes e o dia das Bruxas

Blog do Luiz: Praia do Esquecimento


Meus site:

www.amaweks.com


segunda-feira, 23 de outubro de 2023

 O Luiz Souza tem produzido um trabalho multi linguagem que dialoga a todo momento com a proposta de Arte Anacrônica, e essa nova série dele de criação de cartazes de filmes clássicos do cinema mostra isso, sempre com pinturas, manipulações fotográficas e vídeo montagens das mesmas em diálogo com "amostras" (samples) da produção cultural do século XX. Não só com a proposta estética e suas consequências sociais e políticas para o agora e futuro, mas com um entendimento de como chegamos até aqui e por que acreditamos falar do lugar no tempo onde realmente estamos em termos culturais.




Não é um trabalho de achismo, mesmo quando fazemos sinteses que levaram décadas para surgir e das quais já temos dificuldade de rastrear todos os interlocutores e escritos do passado, mas votla e meia vamos esbarrando com textos e autores que já lemos e redescobrindo essas conexções. Reymond Williams tá no DNA do Luiz e sua trajetória acadêmica que eu sei, e ler um comentarista falando que ele usa a palavra "anacronia" pra falar na cultura nesse estágio do capitalismo numsentido próximo do que falamos é mais uma das confirmação disso.

Novamente, é tema que precisava ser tratado em convesas mais densas, o que parece não existir fora da academia, e não estou com isto sendo elitista, o quê explico: não reclamo do cidadão comum, mais preocupado em colocar comida na mesa e se anestesiar político e socialmente, mas do acadêmico que me parece que só é intelectual dentro das suas 6, 8, ou 10 horas de trabalho/estudo dentro da academia. Eu nunca compreendi isso, minha relação com o saber, e acho que o Luiz compartilha, era de integridade do ser: o que eu aprendo e penso sobre o mundo transborda e eu aplico em todos os aspectos da minha existência, nem consigo ser diferente. Já a maioria dos intelectuais acadêmicos só é intelectual dentro do espaço institucional, quando não apenas dentro do seu recorte ultra especializado de estudos. Sempre achei isso engraçado.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Tem dias que é ph*da

Tem dias que eu tenho de ficar por uns minutos com a cabeça debaixo do chuveiro e dizer a mim mesmo que é bom e vale a pena estar vivo, apesar do mundo que nós construímos.

O Estado Sionista de Israel, que já praticava um regime de apartheid, fechando em um gueto toda uma população de recorte étnico, vai entrar para a história na mesma página dos genocídios, dos crimes de guerra, dos estados fascistas e de extrema-direita, e ironicamente das tropas Nazi e suas ações carniceiras no leste europeu durante a segunda guerra mundial. Goste ou não, concorde ou não, isso vai estar nos livros de história, não somos nós quem decidimos, mas digo que do que conheço dos historiadores e de sua profissão, sei que vai ser a única forma possível da história ser escrita, seja com maior ou menor grau de floreios.

Se você é judeu, ou simpatiza com o estado Sionista de Israel, lhe digo que a verdadeira questão está longe de ser o que eu penso a respeito destas décadas e dos fatos mais recentes: eu estou longe, não tenho poder político algum, não sou parte de nenhum grupo de pessoas relacionadas a esse conflito, luto para mal conseguir a minha sobrevivência diária. A real e relevante questão é o que você vai fazer a respeito desta constatação. Vai negar? Fingir que não existe? Acusar qualquer crítico do Estado de Israel de antissemitismo como se fosse essa uma palavra mágica que mudasse as coisas? Lamento, não mudará. Os livros de história vão sim ser injustos e jogar você no mesmo saco do Governo Sionista, de suas décadas de apartheid, de seu genocídio étnico e ao lado daqueles que um dia fizeram algo semelhante ao seu povo. Novamente, não por que eu estou dizendo, eu não sou ninguém nesse filme, e só estou lembrando a quem me leia desse fato. Então o que você fará a respeito, ao menos daqui para frente?

Quanto a mim, eu falo isso por que eu sempre me coloquei, e sempre vou me colocar, do lado dos oprimidos do mundo. Tenho essa mania, de me identificar mais com estes, não sei o porquê.





E se você ainda me acompanha na leitura até aqui, tenho outra coisa pra dizer. Ainda debaixo do chuveiro, depois declamar mentalmente o texto acima em minha cabeça, eu me perguntei o que é isso que me faz ainda querer viver. E a resposta pode soar obvia para quem me conhece: Arte. Se não fosse pela Arte eu acredito que eu não estaria mais nesse mundo. Um mundo horroroso e distópico, onde qualquer pessoa com um mínimo de senso histórico pode perceber o quanto essa sociedade moderna, capitalista, vem degradando a vida entre nós, ao ponto de prometer a desumanização completa que nos reduz a meros consumidores e reprodutores do sistema 24 horas por dia. Um mudo de guerras, de miséria, fome, intolerâncias várias, opressão de classe, e horrores inacabáveis para se descrever. Um mundo que se quer pode oferecer um futuro às novas gerações, relegadas ao cinismo de uma má consciência de um "inevitável" desastre econômico, ambiental, consequentemente social e existencial.

Criamos estes horrores não só por ganancia, por instinto animal de "o meu primeiro", como muitos outros animais, ou por puro sadismo, como fazem alguns primatas, mas também por que somos animais simbólicos. Nós olhamos para o mundo e enxergamos coisas que ali não estão, que são projeções de nossas cabeças. E estas projeções carregam significados internos, e sociais, que vão pra além de sua representação. E é exatamente por sermos essa espécie de animal, louco e terrível, que também somos capazes de beleza e de sonhar um futuro melhor. 

Projetamos utopias, pensamos em futuros possíveis, sem fome, sem fronteiras, sem classes. Nos organizamos, lutamos não só por agendas individuais mas sociais. E fazemos isto por que temos a capacidade de imaginar. Imaginação que esta sociedade mata em quase todas as pessoas, mas que nós artistas, a duras penas, nos forçamos a cultivar. Inventamos mundos possíveis e impossíveis nos filmes, livros, games, e outros tipos de narrativas, além de poesia, música, e outras formas de dar significado e espírito ao invisível. Mundos em planetas distantes, utopias de paz entre os homens aos moldes de “Star Trek”, histórias de superação das mazelas sociais humanas, ideais que transcendem as necessidades de um indivíduo pelas quais lutar. Nisso tudo a arte é essencial para nos ajudar a seguir a diante. 

Não fosse a arte, em todas as suas formas, o mundo seria apenas isto que está aí e do qual já falei o suficiente. Só restaria imediatismo biológico seguido de um senso de inevitabilidade histórica. A vida sem símbolos seria a ausência de cores no agora e no futuro. Eu acredito que o "fim da história" vai se dar não quando as instituições humanas chegarem a este ou aquele estágio de desenvolvimento, mas quando morrer a arte entre nós. Se isto está próximo ou distante, com essa investida capitalista das IAs, se podemos superar ou não este desafio, ai eu deixo para sua imaginação.

 

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Despertei pela manhã pensando...

Despertei pela manhã pensando...


A Anacronia deve ser a índole da produção cultural de nosso tempo, por que as dinâmicas culturais não estão isentas dos processos socio-econômicos, por que a tecnologia não é ideologicamente isenta, e por que o tempo se diluíu e vai seguir se diluíndo em uma alquimia frenética no século XXI (e isso para além de tudo que já temos falado sobre as características anacrônicas da produção cultural da era pós internet).

O Capitalismo segue a tendência já anunciada a mais de um século, de mecanização e exclusão do trabalho humano. Humanismo é algo do passado, ao menos na visão dos grandes capitalistas, que agora enxergam o mundo com a lente do Transumanismo. A cada dia "sobra" mais gente no mundo, e vai sobrar cada vez mais. Bípedes com polegar opositor e telencéfalo altamente desenvolvido que não tem mais lugar ou função para o sistema.

Diferente do que pensaram e podem pensar alguns de forma vã, de forma muito passadista, nostalgica e não anacrônica, não vai haver solução automática. Nada de "renda universal" para todos no planeta (quiçá para algumas populações de pequenos paísies europeus, por algum tempo talvez, ou algum programa de renda mínima para os mais carentes como é o Bolsa-Família). A ética do grande capital vai ser a da obsolescência do ser humano, que nem mais para lenha deve servir, e se torna então apenas um estorvo. Fingir que não é assim é mero devaneio, muleta psicológica existencial, ou pura e simples ignorância, carência de experiência de vida e ferramentas intelectuais para ler as coisas em nível macro.

O que já vemos acontecer, e deve ainda seguir e se ampliar no restante do século, serão os grandes genocídios: pandemias, fome, fascismo, ou o "bom e velho" puro e simples genocídio étnico, como o que já ocorreu na Palestina (sim, já ocorreu, sob o silêncio de todo o mundo dito civilziado, e só estamos agora acompanhando seus momentos finais). O Capitalismo entrou em modo autofágico, faz algum tempo, no mínimo desde Tatcher, e eliminou qualquer resquício de ideologia humanista das esferas de decisão.

Sem luta, real e efetiva, a mecanização e obsolescência humana na geração de capital não trará liberdade, redução de jornada de trabalho, renda mínima universal para todos, mais tempo com seus filhos, muito menos espaço para cultivarmos o espírito humano (aliás, eles tem trabalhado para o sentido oposto). Se como "novo desocupado" você não puder se quer gerar centavos para alguma "big tech", seja pelas redes sociais, pelo seu joguinho online predileto (e tem diferença entre os dois?), e consumir algo, você esgotou completamente sua utilidade para o sistema. Nem mais como "exército de reserva", para baixar os salários, você ainda serve, por que esse "cargo" já está saturado de gente.

O Capitalismo agora devora até mesmo seus "filhos", as novas gerações de mão de obra precarizada que deve gerar capital até em seu último suspiro de agonia, escluídos e desprovidos de meios de compreender o que se passa por que presos a sistemas automatizados e gamificados das redes sociais. O controle do tempo das pesssoas pelo capital chegou a um nível de atomização em que estamos todos, a todo momento, disponíveis para sermos explorados, de qualquer lugar, o que fazemos até mesmo em nossos supostos momentos de lazer e interação social.

A Anacronia sempre foi nossa índole, de nós artistas do terceiro mundo, e é agora ainda mais necessária, por que Chronos, como na pintura de Goya, deus do tempo, devorador de sua própria criação, é agora também o signo do capitalismo do século XXI.





quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Reconhecimento na mídia

Por uns 5 anos (de 2013 a 2018) eu criei videogame no estilo retrô, só que para computadores modernos, e sentia que eu era apenas mais um grão de areia no Saara. Então decidi enveredar pelo nicho de criar jogos para sistemas obsoletos, por motivos de necessidade, acesso a ferramentas, escolhas estéticas, de projeto e design, mas isso é assunto para outro dia.

Hoje quero falar que de 5 anos para cá meu trabalho vem aos poucos, finalmente, ganhando alguam projeção: mais pessoas jogam e comemtam, e meu trabalho ganha alguma visibilidade até na mídia especializada ou não, aqui no Brasil e mundo à fora.


Repercussão local (Florianópolis, Brasil)


Além dos tradicionais canais de youtube que falam de videogames retro, já participei de alguns podcasts, com destaque pra conversa que tive no Controles Voadores (clique aqui



Por conta do Bruxólico e sua inspiração na cultura local meu trabalho apareceu por duas vezes em jornais impressos locais, e na TV local tbm:



Matéria sobre a retro SC X, com bastante tempo dedicado ao Bruxólico



Matéria curta durante a Retro SC X, também apareço falando de Bruxólico brevemente.






Materias no jornal ND em 2022 e 2023


Revistas nacionais e em português: Além de pequens resenhas de alguns de meus jogos em duas edições da Clube MSX, também teve uma matéria grande sobre "O Purgatório de Virgílio" na "Jogos 80 N.26" e uma entrevista comigo na revista "Micro Sistemas Ed.2 Ano 3".


Foto que o Garrett tirou na Retro SC



Repercussão Internacional


Novamente, além de sites e canais do youtube, nos anos recentes meu trabalho tem recebido resenhas positivas que destacam a qualdaide dos jogos e seu valor cultural. A Começar pelas premiações do "GOTY", do Planeta Sinclair (http://planetasinclair.blogspot.com/), que já premiou meus jogos em categorias específicas:



GOTY 2022



GOTY 2021


Algumas resenhas online se destacam, como o vídeo de Kim Justice, quase um mini Doc falando de meu trabalho e do então lançamento TCQ, videogame anacrônico inspirado na Arte Abstrata, ou a resenha do bruxólico por Amigos Retro Gaming.


Amigos Retro Gaming (legenas em português disponíveis)



Mini Doc de Kim Justice sobre meu trabalho e TCQ


E também matérias em revistas impressas internacionais, como a Wireframe, Replay (Argentina) e Crash (Inglaterra). Nesta última  tenho de destacar duas façanhas: a primeira é que os meus 3 jogos já resenahdos pela revista receberam o selo "A Crash Smash", escolhidos como o melhor jogo daquela edição da revista. E a segunda é ter aquele quadro falando sobre o Franlin Cascaes, em Inglês, levando esta figura importantíssima aqui para a cultura local para além mares.



Matéria de Kim justice na revista Wireframe



Revista Replay N 42



Revista Crash Annual 2022 - TCQ


 

Resenha do Bruxólico, novamente bem elogiado, e meu orgulho esse quadro sobre o Cascaes, mais do que merecido, e graças a meu esforço de escrever sobre os jogos aqui no BLog e a sensibildaide dos resenhistas que perceberam sua importãncia.






Resenha sobre Devwill Too


quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Curta Experimental de "O Purgatório de Virgílio" e breves reflexões anacrônicas.

 

Breves Reflexões Anacrônicas

Sempre que estou produzindo estou pensando em questões relacionadas a arte e sociedade. Outro dia editando minhas revistas em versão “econômica”, de forma caseira, eu pensava sobre o que me motiva a fazer estas cosias, e dessa forma mesmo que fora dos padrões mercadológicos. Em outro momento, editando a vídeo montagem que fiz a partir de O Purgatório de Virgílio (logo abaixo), e conversando com Luiz Souza sobre suas experiências Anacrônicas em Áudio Visual, me vieram algumas reflexões a cerca de alguns temas referentes à arte no século XXI. Prometo que vou tentar ser o mais direto o possível sem ser demasiado superficial nos ensaios abaixo.



Sobre o Curta quero falar que dialogando com os experimentos audio visuais Anacrônicos do Luiz Souza eu estava a algum tempo planejando fazer um curta de o Purgatório de VIrgílio. Queria nele explicitar algumas das referências culturais do jogo, e assim criar algo novo a partir da narrativa do jogo e destas fontes de inspiração. Assim como em outro curta experimenta que fiz, do Bruxólico, eu usei essa colagem e sobreposição de imagens, tentando fazer uma síntese antropofágica no tempo, ou seja, anacrônica.


Apologia a Produção de Cultura Caseira e Artesanal

Uma coisa que sempre tive consciência como artista é que o ideal da indústria frequentemente nos aliena como produtores. Quero dizer com isso que se buscamos o tal padrão de qualidade (sic) do mercado acabamos por nos excluir como produtores, sobrando apenas empreendimentos capitalizados produzindo cultura, a tal da Indústria Cultural.

Por isto publique o que for, textos, imagens, zines, quadrinhos, videogame, sem se preocupar com esse tipo de critério. O que não significa fazer um produto esteticamente inferior ou fuleiro. Pegue por exemplo a estética do Zine, baseada no lixo da cidade, no ruído, na informação fragmentada, na poesia concreta, que dali você vai tirar coisas fantásticas.

O que na verdade a indústria estabelece como um "corte" de qualidade costuma ser calcada principalmente em fatores técnicos e materiais: é a qualidade do papel, da impressão, da revisão de texto, do marketing e difusão, em fim, de toda uma estrutura de fábrica. A Indústria cultural se importa principalmente com esses fatores, e como último e distante quesito a qualidade estética, entendida como o fator artístico ou de esmero em como a linguagem, seja ela qual for como o game, quadrinhos, etc., articula forma e conteúdo.

Na real, esteticamente os produtos da Indústria cultural podem até ser puro lixo, sem problema, “fast food” na forma de filme, game, livro, etc, desde que venda, e para isto pagam bem marqueteiros que sabem domesticar eficientemente seu público. Então, meu amigo, produza, busque o esmero estético nas linguagens de sua escolha dentro das condições materiais possíveis à você, e desencane dos padrões da indústria. Se não fosse por isto eu não estava fazendo também jogos para computadores 8-bits, vistos como obsoletos, mas fazendo através deles coisas inéditas no campo da cultura.

 

O Problema do acúmulo informacional do séc. XX

Como o Luiz Souza já frisou algumas vezes, e de certo modo está em nosso manifesto, um dos problemas que se coloca aos artistas do século XXI é o que fazer com o acúmulo de produção estética, de textos, quadrinhos, sons, imagens em variados suportes, animações, em fim humanas de pelo menos todo o século XX. Isso é um problema muito maior de o que ou como utilizar as novas técnicas digitais criadas no século vigente.

As pessoas imbuídas daquele espírito da “Internet como espaço livre”, por mais que enganadas e ideologizadas pelos liberais do Vale do Silício, ainda tentam manter na internet essa grande enciclopédia, esse grande arquivo de material já produzido. As vezes de forma organizada, em fóruns, ou sites como a “Wikipedia” ou o “Internet Archive”, as vezes fragmentadas em seus canais de youtube. São produções comerciais de todo o século XX, de filmes, livros, a videogames. Bem ou mal, isso ainda existe para além dos controles das plataformas. E essa talvez seja a melhor faceta da internet ainda hoje.

Mas voltando ao século XX, quem conhece meu trabalho sabe que me fascinam as limitações técnicas do (mesmo recente) passado. Tecnologias mecânicas, animações e filmes com técnicas simples e hoje acessíveis a quase todos se dispostos a subverterem os usos mais comuns do “ismartefone”.  O Método Anacrônico frequentemente pega essas técnicas e mistura com questões e problemas sociais do presente, na tentativa de fugir das amarras e exigências técnicas impostas pela indústria hoje. Pra quê fazer um vídeo de 30 segundos em resolução 4k se com o mesmo recurso de equipamento eu posso fazer um curta de 5 minutos em resolução mais baixa? Recursos técnicos tidos como obsoletos não impedem que um filme do Chaplin ainda seja uma obra prima, a diferença está no conteúdo.

Dai penso o seguinte: num ponto em relação ao capitalismo os liberais (e até Marx pensava isso), tem razão, o capitalismo até certo ponto acelera o desenvolvimento técnico. Ou, assim tem acontecido, apesar de que parecemos estar no limiar de uma barreira para esse sistema econômico e social nesse quesito. No entanto, quem disse que esse avanço técnico “hyper” veloz é exatamente bom? Não estou falando que é ruim pra medicina, ou outros setores que se relacionam com o bem estar humano, não sou idiota, no entanto tem uma coisa que não consideramos e parece cada vez mais claro: pelo nos últimos 100 anos a técnica, tecnologia, avançou muito mais rápido do que os seres humanos e suas formas de organização social pudessem acompanhar.

Então eu penso na evolução das linguagens estéticas e narrativas, na arte em geral. Chaplin resistiu ao uso do som em seu cinema não só por preciosismo, mas por que acreditava que aquela linguagem, do filme dito “Mudo”, ainda tinha espaço para se desenvolver. “Tempos Modernos” é um filme com som mas que explora a linguagem do filme mudo. E assim vamos avançando o século XX e vendo a técnica evoluindo e se impondo, através da indústria, em toda a produção artística. Tornando obsoletas linguagens que mal haviam amadurecido.

Eu penso isto, por exemplo, da linguagem do videogame de 8 bits, dos anos 80, ou 2D e m pixel arte em geral. Foi uma linguagem que por necessidade e velocidade da indústria foi abandonada no seu auge, no seu momento de amadurecimento técnico. Quem dirá do seu amadurecimento como arte ou linguagem, que é algo que vai muito além da técnica mas que está também em diálogo com esta. Penso o mesmo de muitas outras formas e linguagens na arte.

Esta é uma das tragédias do capitalismo na arte, o avanço técnico acontece mais rápido do que o ser humano pode acompanhar, resultando em distorções absurdas, não só na desigualdade social, o que já é consenso por qualquer pessoa minimamente crítica a este mundo, mas também de capacidade para o ser humano processar tanta informação gerando um déficit nas potencialidades das suas invenções técnicas. E acho que aí entra o quanto temos de acúmulo de técnica sem ter explorado elas em muitas de suas possibilidades.

Então este fato, somado a busca por se libertar de outras imposições do mercado que alienam pequenos artistas, é motivo suficiente para essa retomada de linguagens e técnicas inventadas no século XX, mas que com certeza tem muito ainda a nos dar, além de serem facilmente acessíveis com equipamentos e tecnologias quase banais hoje em dia. A velocidade do avanço técnico é inimiga do aprofundamento das novas linguagens criadas no século XX, mas o que precisamos fazer e nos apropriar dessas tecnologias e olhar para as linguagens do século passado, com um olho na vida social do presente.

  

Humano "Versus" IA: imposição da velocidade da indústria.

Como era de se imaginar, o conteúdo produzido nestas IA’s, ou ferramentas de automatização na geração de imagens, roteiros, entre outros trabalhos criativos, tem sim uma ideologia. É a ideologia de seus donos, um algo como um senso comum controlado por algoritmos treinados a partir de valores da sociedade burguesa já decadente e cínica em relação ao futuro nada brilhante que projetam para os seres humanos (ao menos os humanos pobres, que são a maioria).

Estas ferramentas de automação são, e serão, vendidas como politicamente isentas, mas não o são nem serão. Elas vão certamente se tornar eficientes em emular todo e qualquer estilo gráfico, de escrita, audiovisual, sonoro, humanos. E aí, o que sobra para seres humanos reais? Ou, o que sobra para seres humanos que ainda se importam com arte feita por outros seres humanos, fruto de experiências humanas vividas, por mais imperfeitas que sejam, e não de experiências tabeladas em “big data” que são matematicamente fragmentadas e reorganizadas por uma IA para criar supostamente arte.

Alguém pode pensar: mas as Ias só servem para fazer arte digital, os seres humanos ainda podem fazer trabalhos manuais. Sim, por algum tempo isto ainda pode distinguir uma produção humana que esteja fora do mundo virtual, mas no momento que ela se torna imagem, se torna mais uma imagem na internet e deixa de se diferenciar. Além do que, quem garante que a técnica da indústria não vai também sobrepujar as mãos humanas? Se tem algo que a mecanização industrial já faz a tempo é substituir mãos humanas onde as da máquina se tornam mais baratas e produtivas.

Frente a isso o problema que se coloca para aqueles que desejam ainda fazer uma arte humana se torna inevitavelmente o de como fazer, produzir, arte que possa ser reconhecido como produção humana? Ou, como fazer algo que não possa ser produzido pelas tais IAs(sic)? Se for pelo parâmetro do mercado, nada, não vai haver nada que se possa fazer. Se for pela necessidade humana de ser original, tem sim algo a ser feito.

A resposta possível para mim reside no conteúdo crítico e político. A crítica social autônoma e criativa, o conteúdo político realmente emancipador e ameaçador para a opressão hegemônica dentro do capitalismo, só vai ser possível ser exercida na arte criada por seres humanos. Como já acontece há muito tempo, essa arte dificilmente vai ter espaço na indústria cultural, a não ser que possa ser cooptada de alguma forma. De qualquer modo, esse é o fator diferencial que vai restar ao humano, visto que as IA’s tem direcionamento ideológico.

Então resta a arte feita por mãos e cabeças humanas ser já agora, e o será inevitavelmente em breve, ainda mais política, por que este deve ser seu único diferencial estético em relação ao “senso comum” homogeneizado do conteúdo gerado através destas ferramentas digitais de automação, por que se tem algo que a “arte” de IA não vai nunca poder ser, por que iria contra sua função e controle de seus donos, é perigosamente política. Aqueles que negarem ou recusrem este fato vão setornar aidna mais irrelevantes, ainda mais "uma gota no oceano" de contéudo efêmero da internet.