(For english version, scroll down)
Recentemente postei em minhas redes sociais um vídeo que editei do processo de construção de uns chocalhos, e um amigo do Instagram fez uma pergunta que merece uma postagem aqui no Blog:
Como respondi lá para ele, eu vejo as semelhanças nos procedimentos e forma de pensar em toda arte que crio, seja ela digital ou material, no suporte que for. Antigamente eu gostava de pensar nos termos do movimento punk de "fazer o máximo do mínimo", até por uma consciência de que eu era (e ainda sou) pobre, com pouca grana e acesso a materiais de primeira, mas nem por isso vou me resignar e deixar de fazer o que tenho vontade de criar. Se está em minha cabeça, e eu quero trazer para o mundo, então eu vou tentar dar um jeito, com os materiais que tiver acesso, memso que não sejam os "ideais".
Quem acompanha meu trabalho deve ter notado isso. Então vou exemplificar: quando crio games, se eu não sou programador de formação, e não tenho as condições de tempo ou lugar social para me dedicar a aprender a programar tudo do zero uma linguagem como Assembly, por exemplo, então eu busco uma lingagem acessível, ou mesmo parcerias como a que fiz com o Laudelino (Mangangá Team). Busco um lugar onde me sinto a vontade e sei que consigo ir até o fim de um projeto: o meio de retrogames, onde dou conta do escopo, da música, da pixel arte, etc. E faço isso assim, mesmo que o game pareça meio "precário" (o que é falso) aos olhos de quem está no mercado de games: "por quê você não faz o game para celular, alí que está o dinheiro, ou na steam, ou no xbox, etc....". Simplesmente por que no momento me é mais acessível, por vários motivos, fazer games para ZX Spectrum e MSX.
Bruxólico de MSX
Também, se eu não tenho materiais de primeira para fabricar instrumentos musicais, que assim seja, então eu entro na pesquisa dos materiais alternativos, adaptando, buscando informação de outros construtores no youtube, e encontrando minhas poróprias soluções também. Se eu não tenho papel e caneta, ou lápis de cor, dos melhores, não tem problema, eu dou um jeito com materiais simples, depois escaneio, trato a imagem, faço o que tiver de fazer para materializar minha ideia, até por que meu tempo é curto demais para tanto projeto, então eu pesquiso e busco as formas de fazer mais rápido.
E que fique claro: não é que eu não goste de volta e meia ter acesso a bons materiais, ou que eu não gostaria de ter minha arte em espaços de maior alcance: ter meu livro editado em grande tiragem e material de qualidade, etc... É que diante das condições de tempo, dinheiro, e mesmo da minha energia disponível, eu faço a escolha do trabalho independente e artesanal. E mesmo que tivesse acesso a outros meios, não deixaria de fazer também o trabalho "caseiro" em paralelo, podemter certeza. Por que também sei que tudo isso é uma das cosias que dá autenticidade e personaldiade ao meu trabalho.
Mas vamos além. Nos anos recentes quem me ajudou a ter um outro nível de consciência desse procedimento foi o amigo Luiz Souza, com toda as suas ideias ao redor de "Anacronia" na arte. O Luiz foi quem idealizou e redigiu o "Manifesto da Arte Anacrônica" (leia aqui). Foi um trabalho amplo, também coletivo, com o grupo que formamos temporariamente e nomeanos de "Gang do lixo", não sem motivo. É o Luiz que vai identificar que essa forma de proceder, que não é só minha, mas de muitos produtores ao nosso redor, é um tipo de "índole terceiro mundista" de tirar leite de pecra, de trabalhar com os recursos materiais e imateriais que temos.
No terceiro mundo estamos acostumados aos "refugos" materiais e imateriais do centro do capitalismo, Ao menos, foi assim nos anos 80 e 90, antes da internet, tempo que nos formou. Naquela época, tudo chegava aqui com atraso, de segunda mão. Geralmente, o que já tinha sido descartado como obsoleto no primeiro mundo era a nossa novidade por aqui. Clássicos da literatura ou da filosofia chegavam também de segunda mão: fragmentos em gibis e filmes da seção da tarde. Teve livro que eu só soube que existica por conta de letras de músicas, filmes, quadrinhos, e depois ia buscar a obra original, se possível, nos sebos (raras vezes nessa vida que comprei um livro novo). E isso sempre foi o comum para jovens suburbanos como nós.
Acho que sempre tivemos alguma noção de nossa condição de procedimentos ao criar, se não não estaríamos aqui hoje, provavelmente no auge de nossa produção em vida. Mas as reflezões aprofundadas pelo Luiz em Anacronia deram a clareza necessária para finalmente falar de forma mais clara a respeito. Isso é só um dos aspectos desa índole de quem vive na margem do capitalismo, claro, vale lembrar que Anacronia também diz respeito a se apropriar de diferentes tempos de forma crítica. mas essa é uma conversa ainda mais longa.
Sugiro, aquem se interessar, que leia o manifesto, e tire suas conclusões. Também, que siga o Luiz Souza nas redes e visite seu blog:
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English:
Maximum from the Minimum: Anachrony and the “Third-World Disposition”
I recently posted on my social media a video I edited showing the process of building some shakers, and a friend on Instagram asked a question that deserves a post here on the blog:
As I replied to him there, I can see similarities in the procedures and ways of thinking across all the art I create - whether digital or material, in whatever medium. I used to think in punk-movement terms of “getting the maximum out of the minimum,” partly because I was (and still am) poor, with little money and limited access to first-rate materials. But that doesn’t mean I’m going to resign myself and stop creating what I feel like creating. If something is in my head and I want to bring it into the world, then I’m going to try to find a way, using whatever materials I have access to, even if they aren’t the “ideal” ones.
Anyone who follows my work has probably noticed this. So let me give an example: when I create games, if I’m not a programmer by training, and I don’t have the time or social conditions to devote myself to learning to program everything from scratch in a language like Assembly, for instance, then I look for an accessible language - or even partnerships, like the one I formed with Laudelino (Mangangá Team). I look for a space in which I feel comfortable and know I can bring a project to completion: the world of retrogames, where I can handle the scope, the music, the pixel art, etc. And I work this way even if the game seems a bit “rough” (which is false) to the eyes of people in the game industry: “Why don’t you make the game for mobile? That’s where the money is - or on Steam, or on Xbox, etc…” Simply because, at the moment, making games for the ZX Spectrum and MSX is what’s most accessible to me, for various reasons.
Bruxólico for MSX
Also, if I don’t have top-quality materials to make musical instruments, so be it. Then I go into researching alternative materials, adapting, seeking information from other makers on YouTube, and finding my own solutions as well. If I don’t have the best paper, pens, or colored pencils, that’s fine - I make do with simple materials, then scan, process the image, and do whatever I need to materialize my idea. My time is far too limited for so many projects, so I research and seek ways to work faster.
The little illustrated book of Bruxólico, made by hand because “who needs a publisher?”
And let it be clear: it’s not that I don’t enjoy having access now and then to good materials, or that I wouldn’t like to have my art reach a wider audience—to have my book printed in a large run, with quality materials, etc. It’s just that, given the conditions of time, money, and even my available energy, I choose independent and handcrafted work. And even if I had access to other means, I wouldn’t stop doing the “homemade” work in parallel - you can be sure of that. Because I also know that all this is one of the things that gives authenticity and personality to my work.
But let’s go further. In recent years, someone who helped me reach a new level of awareness about this way of working was my friend Luiz Souza, with all his ideas around “Anachrony” in art. Luiz was the one who envisioned and wrote the Manifesto of Anachronic Art (read it here). It was a broad and also collective work, created with the group we temporarily formed and named the “Trash Gang,” not without good reason. Luiz is the one who identifies that this way of operating - which is not only mine but shared by many creators around us - is a kind of “third-world disposition,” of squeezing milk from stone, of working with the material and immaterial resources we have.
Anachrony Magazine No. 1, the result of the Trash Gang’s work.
In the Third World we are accustomed to the material and immaterial “leftovers” from the center of capitalism. At least, that’s how it was in the ’80s and ’90s, before the internet - the era that shaped us. Back then, everything arrived here late, second-hand. What had already been discarded as obsolete in the First World became our novelty. Classics of literature or philosophy also arrived second-hand: fragments in comic books and afternoon-television movies. There were books I only learned existed because of song lyrics, films, or comics; then I would go looking for the original work, if possible, in used-book stores (I’ve rarely bought a brand-new book in my life). And this was always normal for suburban youths like us.
I think we always had some notion of our condition and procedures as creators; otherwise, we wouldn’t be here today, probably at the peak of our productive lives. But the reflections developed by Luiz in Anachrony gave the clarity needed to finally speak more openly about it. This is only one aspect of that disposition of those who live on the margins of capitalism. And of course, it’s worth recalling that Anachrony also concerns critically appropriating different temporalities - but that is an even longer conversation.
I suggest, to anyone interested, that you read the manifesto and draw your own conclusions. Also, follow Luiz Souza on social media and visit his blog:
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