Na quarta feira, a convite do nosso amigo Branco do canal Old Players, participei de uma conversa sobre o uso de IA no desenvolvimento em micros retro. Cheio de pessoas mais experientes que eu, e mais qualificadas no meio até, acho que conseguimos levantar alguns pontos interessantes, apesar do tempo ser bastante curto para o tema tão complexo e novo. Quem quiser pode assistir as 2 horas da conversa no youtube:
Ainda gostaria de colocar aqui vários outros pontos, alguns que eu tinha já em mente anteriormente, e outros que me ocorreram durante a conversa. Não são reflexões prontas, mas sim um levantamento e primeiras ideias mesmo, e eu não queria deixar elas se perderem na cabeça, então...
IA?
Gente especialista na área já fala disso pelo menos desde que essa onda de IA abertas ao público em geral começou, e eu preciso replicar: isso que chamamos de IA não são realmente inteligências. O que me faz pensar que esses geradores automatizados de "conteúdo" (conteúdo aqui pensado ironicamente como se usa a palavra na itnernet hoje em dia) apenas performam inteligência. Em sintonia com nosso tempo, uma era performática, onde nas redes sociais vale mais a performance, independente da realidade material, a ditas IAs (sic) levam essa experiência ao seu máximo.
Esses softwares fazem médias complexas a partir de seus banco de dados super extensos, mas para chama-las de "inteligentes" é preciso então rebaixar o conceito humano de inteligência. E isso a gente vê acontecendo a todo vapor nas redes sociais. Pior é ver gente defendendi isso ,dizendo que o que faz um artista, ao buscar suas referências e inspirações, seria o mesmo que faz uma IA ao gerar uma imagem.
Criadores...
A Varinha Mágica:
Agora falando mais especificamente de desenvolvedores de jogos, sejam retro ou não. Para mim, a questão do uso da IA passa primeiro pelo critério de quem usa: você pretende usar a IA como uma ferramenta que auxilia em processos ou como uma "varinha de condão"? Por que quando as pessoas utilizam a IA como se fosse o Harry Potter enunciado palavras mágicas, em especial para criação estética (música, imagens, vídeos), os resultados são aquela coisa medíocre. E não se assuste com a palavra, medíocre vem exatamente de mediano, algo que não tem absolutamente nada de excepcional e único.
Hobbista ou profissional?
Sendo bem direto, se a pessoa é um hobbista, que quer realizar seu sonho de infância de criar seu game utilizando IA para gerar os gráficos, as músicas, o código, eu não vejo grandes problemas, ela que vá e seja feliz. Mas é preciso dizer que o resultado pouco tem a ver com um trabalho realmente profissional. Novamente, o que deve sair é algo no máximo mediano, e criar um game envolve um trabalho de refino do design que ali possivelmente não vá existir.
Artes desinteressantes.
Sei que muita gente pode não perceber, e eu não queria ficar dando carteirada de "artista formado", mas não consigo achar mais do que medíocre a maior parte das imagens criadas com IA. Já de cara lhes falta composição básica, a motage é uma bagunça de elementos, e pra piorar sai tudo genérico e parecido, frequentemente no mesmo estilo. Talvez, para quem não tenha uma alfabetização visual aquilo pareça extraordinário, e de fato o é nesse sentido. Mas afirmo: os gráficos supostamente "feios" e "infantís" qwue você possa criar com suas mãos será mais interessante que aqueles que parecem "realistas" ou "detalhistas" cuspidos pela IA.
Ausência de controle fino: o level design.
Usar a IA como varinha de condão pode levar a essa ausência de controle fino a respeito de detalhes, como altura do pulo, velocidade, posição milimétrica dos inimigos, etc. Nesse meu tempo criando jogos esse foi o mair aprendizado de todos: foi menos a parte de programação, foi um pouco mais a parte dos gráficos e músicas (assets), mas o maior aprendizado foi o de "game design" e "level design". Terceirizar demais tira todo o controle do criador, em outras palavras, tira sua autoria.
Maturação.
Algo feito rápido demais pode também levar a uma falta de maturação do produto. O que está tudo bem, se a intenção é apenas hobby. Mas o processo mais lento, onde vamos ajsutando o level design, testanto, retomando ajustes, testando, quantas vezes for necessário, leva tempo, e é necessário para um produto bem lapidado. Ainda, é nesse processo que por vezes surgem ideias interessantes e novas que não apareceriam de outro modo.
Aprendizado.
E é exatamente esse tempo que traz um real aprendizado. Eu receio que quem cria jogos desse modo, terceirizando tudo para a varinha mágica da IA, está perdendo a oportundiade de aprender com seus próprios erros. Acho que quem faz isso deveria ponderar e aos poucos tentar terceirizar menos o trabalho para a IA, buscar ao menos uma área, e eu indicaria a parte de level design primeiramente, para tomar toda em sua mão. O game design e o level design é que é o maior aprendizado, mas pra isso é preciso praticar e fazer de fato, com suas mãos.
Pode vir a funcionar para automatização de portes entre sistemas.
Já estão utilizando com sucesso ferramentas de IA para decompilar e automatizar o porte de um game de um sistema para o outro, por exemplo, de NES para Mega Drive. Acho que quem está afim de fazer isso, que faça. Mas eu tenho poco interesse, acho algo muito infrutífero. Por que se a pessoa vai fazer um porte "na mão", tomando suas decisões por sí, modificando o jogo original onde achar preciso, daí até tem algo de interessante. Mesmo aqui, eu prefiro muito mais os jogos originais, com personagens e histórias autorais. Mas ainda vejo sentido em portes de jogos clássicos do passado que exigem adaptação, em especial "demakes" para máquinas menos potentes.
Autoria...
Se a pessoa terceiriza todo o processo: código, músicas, gráficos, de quem é a autoria do produto? Aqui eu vejo tanto um problema de conceito e até um futuro problema legal. De conceito por que a pessoa que acredita que basta a "idéia" para ela ter autoria, não entende nada sobre o fazer estético. O trabalho estético ele se dá no processo entre a idéia e a execução, isso é básico para quem é de áreas da arte, bem estudado e documentado. A pessoa vai ter essa "ilusão" de autoria, e pose até se quiser usar isso como performance nas redes sociais e iludir outros mais, certamente.
E em segundo lugar, o problema legal. Se você terceiriza o trabalho, agora nem digo toda a produção mas digamos que faça todos os gráficos com geração de IA, quem é o dono daquelas imagens? Esse problema legal já tem se apresentado, e obviamente que as big techs, que são poderosas, saem ganhando nessa. Em outras palavras, você não é dono do que a IA regurgita como output. Novamente, se você faz uma criação como hobby, seja feliz. Mas se pretende algo profissional, daí existe um problema sério.
Consumidor
Eu já abordei esse tema em um texto anterior do blog, intitulado "O que os Techbros não entenderam sobre arte":
https://diarioartografico.blogspot.com/2026/05/iasic-techbros-e-o-que-nao-entenderam.html
Mas resumindo, como consumidor, o seu tempo vale o consumo de algo gerado inteiramente com IA? Vale dar 3 minutos da sua vida para uma música que foi gerada com um prompt, em segundos, muito provalvemente para mineirar likes e cdentavos?
Minha sensação é de que não, e tenho percebido reação semelhante de outras pessoas que prezam pela cultura que comsomem/apreciam. Eu me sinto enganado quando vejo algo que inicialmente me chama a atenção, mas com um minuto vendo/ouvindo/assistindo eu já percebo ou desconfio que aquilo é gerado com IA. Confirmando isso, me sinto enganado, trapaceado, e que perdi meu tempo para nada.
Eu sei que talvez nem todos se sintam assim, e está claro que as bightechs, e outras grandes corporações que podem se beneficiar disso, estão empenhadas em criar no senso comum um senso estético que considere aceitável as imagens/músicas/vídeos criados em IA. Isso tem acontecido já em trailers de filmes, novelas, música,s imagens e memes de internet, e agora games e até retro games (nas horrorosas miniaturas dos vídeos, meu deus, que coisa que cansa os olhos até). Tudo isso visa criar essa aceitação, pois se sabe que o senso estético médio é algo que se constroe socialmente.
Por fim...
Não quis aqui entrar nos tópicos que já estão bem em alta sobre todas as questões éticas e ambientais que envolvem a tecnologia das ditas IAs (sic). Elas são sim destrutívas nesse sentido, e são possuidas por empresas nefastas e gerenciadas por "CEOs" sociopatas (sério, não estou exagerando). Sou meio pessimista, não acredito que deixar de usar a IA vai fazer ela simplesmente desaparecer (a ilusão do boicote pequeno burguês). Ninguém tem essa ilusão, eu acho. Mas uma cosia a esse respeito eu quero dizer num parágrafo:
As big Techs simplesmente "samplearam", roubaram para ser preciso, todo o conteúdo humano que puderam, e seguem fazendo isto todos os dias. Agora que já chuparam tudo que havia na internet eles consomem (como o fogo consome, literal até) livros não antes digitalizados, e ações humanas com pessoas desesperadas que utilizam câmeras na cabeça enquanto realizam tarefas cotidianas e trabalhos dos mais diversos. Eles se adonaram o acúmulo de conhecimento humano sem pagar nada para ninguém, por que com osempre, no estado burguês, quem mada de verdade é a burguesia. E elas já indicam que devem punir e arrancar dinheiro de quem ousar fazer o mesmo daqui pra frente (eles já treinam IAs para reconhecer o uso de samples sonoros, de iamgens, ou mesmo inspirações, e assim cobrar dos artistas independentes valores ou desmonetizar-los completamente).
Bom, se você começou a criar jogos por hobby, e se utiliza de geração por IA em todo o processo, seja feliz, mas saiba que está abrindo mão da maior parte da autoria do trabalho. Uma ideia, transformada em prompt, não é a autoria, lamento, não é assim que se dá o processo de criação estética, seja onde for, dinema, quadrinhos, iamgens, e até games. No fazer da materialidade a ideia é retroalimentada pelo fazer, num vai e vém constante durante o processo. Se tem a pretenção de fazer algo realmente seu, tente então aos poucos terceirizar menos, se possível asusma toda uma área do trabalho de produção, e eu sugiro esta ser a do level design. tenha menos pressa, se dê ao tempo de amadurecer o produto no processo.
Para quem trabalha de forma profissional, como eu, é difícil não utilizar essas ferramentas para agilizar processos e automatizar tarefas. Eu particularmente uso sim pra me auxiliar muito na parte de tradução de texto para o inglês, apesar de que nunca utilizo diretamente o texto cuspido pela IA sem revisão e busca de sinônimos em dicionário, muitas vezes preferindo frases "erradas" mas que eu mesmo cunhei á aquelas sugeridas pela IA.
Eu espero sim que a ferramenta possa me possibilitar em breve automatizar o porte da parte de código de um sistema ao outro. Por exemplo, gostaria de fazer meu game para o MSX1, utilizando a engine que já uso, e depois poder fazer a IA portar a parte do código do game, do jeito que eu criei, para o MSX2 ou até o Master System, por exemplo. O resultado seria algo igual ao que eu criei no primeiro sistema, com minhas escolhas sobre o design de fases e inimigos. Ainda assim, eu não converteria automaticamente gráficos ou músicas, faria questão de retrabalhar tudo, além de adicionar novos efeitos mesmo que exigissem aprimoramento manual do código.
Esses são meus pensamentos momentãneos, a coisa tem mudado rápido e a gente se vê tendo de pensar, concluir, e opinar, com pouco em mãos: pouco tempo de experiência no tema, pouca observação do fenômeno, etc. Tenho consciência dessa limitação, e sei que essa breve reflexão de pontos é ainda precária, mas cá está. Obrigado se leu até aqui.
Nenhum comentário:
Postar um comentário