O Tempo da arte
Linguagens estéticas trabalham não só com o material, nem só com a ideia. E não se trata de uma mera soma aritmética destas duas dimensões, mas sim algo que acontece na sua intersecção: onde o discurso encontra a forma. Na maioria das vezes o artista pensa enquanto trabalha com as mãos: é um tipo de pensamento que acontece nesse processo, não apartado do fazer e sentir. Durante o fazer o pensamento vai se remodelando, conexões surpreendentes acontecem que não poderiam acontecer se uma dimensão estivesse separada, compartimentada, uma da outra.
O tempo do artista
Quem trabalha com arte, seja na linguagem estética que for, sabe que existe um tempo de maturação da arte. Às vezes você cria um trabalho e precisa "pôr ele na gaveta", esperar aquela ideia amadurecer, ou mesmo esperar a você mesmo amadurecer para lançar uma ótica que no momento não pode ter sobre aquela ideia/trabalho. Ou você cozinha ideias na cabeça, e acumula experiências em fazer arte, por algum tempo, e num rompante o trabalho é executado rapidamente. Mas mesmo assim, o trabalho não se encerra, e pode ser retomado futuramente e reelaborado.
O Futurismo e o tempo da máquina
Os futuristas, o movimento artístico, deslumbrados com o movimento da máquina, sonharam com uma arte que imitasse seu novo veloz. De forma quase ingênua, agora que olhamos na perspectiva de quem viu a indústria cultural imperialista se desenvolver, celebravam a ideia de um mundo acelerado pelas máquinas. Achando que a maquinização da vida traria mais "ordem", organização da sociedade, não à toa muitos se associaram a regimes e ideias fascistas. Mas o máximo que puderam fazer foi criar representações em imagens desta aceleração na arte.
A Indústria cultural
Damos um salto até o começo dos anos 2000, vendo o que se tornou "a máquina" de cultura. Cinema de Hollywood, grandes gravadoras, TV, as "fábricas de ilusões" (e podemos colocar boa parte do jornalismo mainstream também, por que não?). Dentre muitas mazelas, a indústria cultural operou uma aceleração dos tempos: fizeram aquilo que os futuristas apenas representavam deslumbrados em seus quadros, agora transformado em "engenharia social". O tempo acelerado aqui cumpre uma função importante: não dar tempo da pessoa pensar. Quem pensa muito, desiste da compra, e quem não pensa consome por impulso.
A arte como resistência ao tempo acelerado
Não é novo, nem fui eu quem inventei. Já há algumas décadas muitos artistas falam que artistas preocupados em dialogar com seu momento, e fazer uma arte que toque as pessoas, precisam ir contra o tempo acelerado da vida no capitalismo, em especial do meio urbano. A arte deve desacelerar quem a aprecia, fazer a pessoa sair daquele regime onde ela não consegue parar para pensar. Porque isto, além de uma questão social, é também existencial, e sem alcançar ou propiciar essa desaceleração sua arte vai ser consumida apenas como entretenimento, passatempo que é substituído e esquecido no instante seguinte. Arte exige um mínimo de contemplação, e quem está correndo não contempla.
A Indústria cultural das redes sociais
As redes sociais, plataformas digitais, são uma nova etapa da indústria cultural, agora onde os próprios consumidores também produzem "conteúdo" (já falei dessa questão anteriormente). Como ela busca baratear e acelerar essa produção, atomizando-a em produtores quase individuais, acaba por acelerar ainda mais nossa existência e nosso consumo.
Os vídeos cada vez mais curtos e a dopamina
Já é senso comum: tudo se trata de retenção da atenção e ativação de dopamina barata, buscando nos prender como zumbis nas telas. A aceleração do consumo de cultura parece ter chegado ao seu máximo (será? O poço parece que nunca tem fundo...), e cada vez mais se fala o quanto pessoas, em especial de novas gerações, não conseguem mais assistir a filmes de longa-metragem, ou ouvir um álbum musical, às vezes nem um vídeo inteiro. Pessoas assistem vídeos e outros conteúdos em 2x da velocidade. Até entendo o uso prático disso, mas em termos estéticos, estamos nos educando a agir de forma ainda mais impulsiva e inconsciente.
Não dá tempo para pensar
Esse sempre foi o sonho do marketing moderno, em especial aquele desenvolvido nos EUA se utilizando de conceitos da psicanálise: trabalhar os impulsos mais inconscientes das pessoas, induzi-las a agir pela pura "emoção" no lugar da razão, ativar seus instintos mais primários a respeito da busca por sexo, comida, e conforto. É tudo claramente feito para você não pensar e assim se tornar um consumidor mais ávido, e "melhor", não para si, mas para a indústria como um todo.
Um adendo: tudo isso também como resposta às crises de superprodução:
Sim, uma das crises "clássicas" do capitalismo no século XX foi a de "superprodução". Funciona assim: uma indústria prospera, produz cada vez mais, até um ponto que ela satura o mercado, pois todos que podiam comprar aquele produto já o compraram. A solução encontrada para isso foi por um lado a obsolescência programada, e por outro a necessidade de se inventar necessidades nas pessoas. A guerra, a destruição de países inteiros, também tem sido utilizada como uma forma de "resetar" mercados. Que coisa bonita, né?
IA e aceleração no tempo para o produtor
Mas voltando à nossa situação: artistas e produtores culturais na era das plataformas digitais e agora das IAs (sic). A própria hegemonia da indústria cultural já forçava artistas independentes a acelerar seus processos, até mesmo por questão de sobrevivência. As redes sociais levaram isto a um novo patamar. E quando parecia que não se podia piorar, agora a IA deve tornar tudo ainda pior. O artista se vê (erroneamente na minha opinião) obrigado a acelerar o seu fazer à mesma velocidade do consumidor.
Não dá tempo para o produtor pensar
Mas ao fazer isto, o artista pode se tornar tão autômato quanto os que consomem a cultura da internet. No lugar do artista tentar desacelerar o espectador com sua arte, criando algum atrito que o faça frear um pouco que seja, ele acelera o seu fazer à velocidade da máquina atual. Aqueles que produzem na velocidade da máquina não conseguem nem eles mesmos ter o tempo para pensar. Seu produto é então representante de um inconsciente, que talvez nem seja o dele, mas fruto de uma aleatoriedade fabricada pela máquina.
Arte, novamente, como resistência a esta aceleração
Para mim, então, se torna ainda mais patente que a arte resista, e seja ela uma forma de resistência a esta "uber aceleração". Em primeiro lugar, por nós mesmos: como artista para não ser engolido por esta máquina, acelerado ao ponto de nem conseguir mais extrair reflexões (que não precisam ser intelectuais, podem ser estéticas) de seu próprio processo. Processo que se torna mínimo, quase inexistente, para quem se resume a utilizar prompt de geração automatizada. Não vai ser a indústria quem vai resistir a isso, pode ter certeza, só os artistas independentes que o podem fazer.
Então, faça no seu tempo, não no tempo da máquina
Então, faça no seu tempo. Melhor, busque desacelerar seu tempo ao produzir arte. Pois somos também gente vivendo esses tempos, e mesmo recusando esta ideia somos sim moldados e induzidos a esta aceleração. Então, em primeiro lugar, se force a desacelerar por seu próprio bem, pelo bem da sua cognição e existência nesse mundo louco. E em segundo lugar, arte como disciplina que acontece na interseção entre a ideia e o material, seu trabalho vai sempre ser contaminado pelo tempo que você dedica a ele. Então, para se alcançar algum efeito de desacelerar o outro, é preciso que essa intenção já esteja no momento da criação.
Não sei bem para quem eu falo...
Eu no fundo não sei bem para quem estou falando. Sei que pessoas super deslumbradas com novas tecnologias não verão muito sentido em minhas palavras. Falo para pares artistas. Mas acho que falo também para quem está no meio termo: pessoas que fazem ou estão adentrando nesse mundo de produzir algo estético, ou seja, arte em alguma forma, e que talvez não saibam de alguns desses preceitos que para quem já está mergulhado nisso há muitas décadas, são essenciais.
No fundo...
Como muito do que escrevo neste blog, neste meu "Diário", eu também estou falando para mim. Falo para meu eu de agora, e o que virei a ser, como registro de um momento, e como lembrete do que não quero perder. Falo pelo simples ato de falar, de organizar e reformular os pensamentos, porque enquanto escrevo eu vou repensando e chegando a novos lugares. Assim também é o fazer em arte, seja na literatura, quadrinhos, cinema, criação de imagens, games, música, ou a mistura que seja. Fazer é um ato de colocar o corpo e a mente a "pensar" (pensar/sentir?), como um só que realmente somos, apesar de nossa dificuldade existencial em entender essa integralidade.
E deu, por agora me cansei desse assunto.
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