O argumento
Sobre o argumento de que a "IA" torna a produção de games, filmes, música, etc., mais acessível para todos, e que "quanto mais gente criando melhor", eu tenho alguams reflexões a expor. Eu acho essa ideia totalmente parcial e problemática. Explico melhor.
"Gate keepers"
Sim, acho que até certo ponto, é uma ferramenta que ajuda em certos processos, e isso sempre torna um pouco mais acessível. No entanto, isso é quase "residual", e a coisa não para por aí. Atualmente você já tem de pagar para ter uma IA mais robusta, que realize o serviço. Como sempre, grana já é um tipo de limitação ao acesso. Mas acho que a coisa não vai parar por aí. Já se fala em cobrar as pessoas por "tokens" de processamento, como um "taxímetro".
O que a IA realmente vende?
As empresas de IA, que acumulam dívidas bilionárias, pois seu custo supera muito sua rentabilidade, mas ainda assim atraí investidores, consegue fazer isso por que prometem uma coisa: que ninguém fará nada sem IA em um futuro próximo. Dito nas próprias palavras dos “Tech Bros”, que todos nós seremos burros, e dependeremos de IA para tarefas que hoje não necessitam delas. Nos tornar reféns da tecnologia é o que prometem essas empresas aos seus investidores, e isso lhes dá um capital monetário e político.
O Custo social
Quando as pessoas estiverem "viciadas" em IA, totalmente dependentes, aí elas poderão cobrar o que quiserem. Tanto em dinheiro, quanto em capital social e político. Sim, nem sempre você paga com dinheiro pelo uso destas tecnologias, mas você paga. Lembrando que são esses CEO's e IA, claramente um bando de sociopata, quem dizem que elas deviam substituir as democracias do mundo e decidir o que é melhor para nós. Essa migalha de "acesso" vem com um custo bastante alto.
Mas para quem usa?
Em termos de quem usa essas tecnologias (eu uso também, para
me ajudar a traduzir textos, para traduzir cosias de uma linguagem de
programação para outra que eu possa entender alguma função, por exemplo), o que
deve acontecer muito em breve será: para quem pode pagar, IA parruda, par quem
não pode, IA que gera material de segunda, terceira categoria. Para as massas,
e me incluo nessa, IAs mais fraquinahs que geram cosias mais
"falhadas". Isso inclusive vai ser (se já não o é) proposital para
assim valorizar os pacotes pagos, não é mesmo? Quem vai querer pagar pela IA se
um modelo "gratuíto" faz a mesma coisa?
O custo estético:
Além disso, existe outro custo estético: baixar o nível das
produções para baratear o custo daquilo que é vendido para as grandes massas.
Isso não é novo na indústria cultural. As produções vão se tornando mais caras
por conta do investimento que é preciso fazer em propaganda, então se tenta
baixar custos na produçã ode músicas, filmes, games, cortando nas partes
criativas e artísticas. Muito se fala do quanto os roteiros de filems pioraram
nas últiams décadas. Ou no quanto a indústria dos games evita o risco da
inovação. Mesmo na música. É preciso "reeducar" o gosto das pessoas
para aceitarem a "estética de IA" como produto tentável e a industria
explorar comercialmente.
Uma operação cultural já manjada:
Nas últimas décadas se baixou o nível de qualidade desses
produtos culturais. Mas isso foi feito com muito investimento em marketing,
para assim "acostumar" o público com esse novo nível de qualidade.
"Nivelar por baixo" é a expressão que se usa. Acho que agora com a
produção de "cultura para consumo" se utilziando de IA vamos ter mais
uma nivelada por baixo. Trabalhar de graça para a indústria nessa tarefa de
acostumar as sensibilidades estéticas com o que a IA consegue gerar é a tarefa
de quem usa "de graça" essas ferramentas, devemos ter clareza disso.
Valorizar produção humana por princípio ético e político:
Na arte, seja games ou o que for, eu vou seguir valorizando
a produção humana. Se o produto utiliza imagens, músicas, roteiro e texto de
IA, eu honestamente não quero valorizar. Se é um game, e foi feito com a
"varinha mágica" da IA, que a pessoa escreveu um “prompt” e cuspiu o
jogo inteiro, eu vou sim chamar de lixo. Existe uma questão política e social,
além de estética e ética, por trás disso.
Acesso á criação é outra coisa!
Fora isso, eu como artista e professor de artes de formação,
sempre valorizei os processos. Eu criei metodologias próprias para conseguir
fazer turmas de alunos em escolas criarem juntos histórias em quadrinhos e
games, do começo ao fim, em processos que levavam meses. Sempre fui a favor do
acesso á prática de se criar arte, mesmo que você não viva como artista. Mas
fazer arte é bom não só pelo resultado, mas muito mais pelo que o processos faz
por nós. Fazer arte te humaniza e te abre horizontes. Mas mandar uma IA fazer
arte, não é o mesmo que fazer arte. Aí é o contrário que acontece: você se
"robotiza". Devo também, como professor de formação, dar o exemplo.
O "processo" com IA:
Mandar a IA criar uma arte é um novo tipo de processo, que
nada tem a ver com criar arte. Realmente acho que é um processo que não
humaniza, pelo contrário. Você nem tem agência sobre o que é criado. Digite o
mesmo prompt duas vezes e a IA vai lhe cuspir dois produtos diferentes. Estas
IAs (sic) são programas probabilísticos, não determinísticos, então existe um
fator "randômico" do que ela cospe. Você tem de fazer a solicitação á
IA (sic) e "torcer" para sair algo que lhe agrade. Não é um processo
onde você faz escolhas, pelo contrário.
O processo humano:
Já o processo humano de criação é repleto de escolhas.
"A, mas eu não tenho acessos a ferramentas avançadas de edição". Bom,
foi por esse motivo que as pessoas inventaram a estética do Zine, do Cordel, por exemplo.
Nossos limites, e suposta falta de acesso, são também motores da criatividade
por que nos forçam a fazer escolhas. Escolher os materiais entre aquilo que
temos acessível, é o que faz pessoas desenharem com caneta esferográfica (já
fiz muito isso). O processo de criação humano é repleto de "agência",
de escolhas, e é isso que nos humaniza. A “falta de acesso” não impedia pessoas
(e eu era uma dessas) de fazer e criar de forma inventiva.
Em resumo:
Se a pessoa usou IA para lhe ajudar em certos processos, eu
estou de boa, por que entendo que a ferramenta está aí, e essa é a sua dimensão
de "acessibilidade". Então, eu concordo que a IA torna executar certos
produtos culturais mais acessíveis, mas até certo ponto. E ao fazer, ela também
faz outras coisas, como eu expus. E, ironicamente, também torna mais
"inacessível", já que afasta as pessoas dos processos humanos de
criação. Ou seja, a IA lhe aproxima do produto final, numa relação análoga a de um consumidor, e lhe afasta do processo humano de criação. Quem "cria" usando a "varinha de condão" está na verdade mais "consumindo IA", e menos criando. Essa máxima de que "IA torna criar arte mais acessível" me
soa então muito mais como slogan a favor dos intresses mais amplos destas empresas de tecnologia. Não caia nessa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário