sexta-feira, 18 de setembro de 2026

IA torna criar arte mais acessível? Vamos refletir...

 

O argumento

Sobre o argumento de que a "IA" torna a produção de games, filmes, música, etc., mais acessível para todos, e que "quanto mais gente criando melhor", eu tenho alguams reflexões a expor. Eu acho essa ideia totalmente parcial e problemática. Explico melhor.


"Gate keepers"

Sim, acho que até certo ponto, é uma ferramenta que ajuda em certos processos, e isso sempre torna um pouco mais acessível. No entanto, isso é quase "residual", e a coisa não para por aí. Atualmente você já tem de pagar para ter uma IA mais robusta, que realize o serviço. Como sempre, grana já é um tipo de limitação ao acesso. Mas acho que a coisa não vai parar por aí. Já se fala em cobrar as pessoas por "tokens" de processamento, como um "taxímetro".

 

O que a IA realmente vende?

As empresas de IA, que acumulam dívidas bilionárias, pois seu custo supera muito sua rentabilidade, mas ainda assim atraí investidores, consegue fazer isso por que prometem uma coisa: que ninguém fará nada sem IA em um futuro próximo. Dito nas próprias palavras dos “Tech Bros”, que todos nós seremos burros, e dependeremos de IA para tarefas que hoje não necessitam delas. Nos tornar reféns da tecnologia é o que prometem essas empresas aos seus investidores, e isso lhes dá um capital monetário e político.

 

O Custo social

Quando as pessoas estiverem "viciadas" em IA, totalmente dependentes, aí elas poderão cobrar o que quiserem. Tanto em dinheiro, quanto em capital social e político. Sim, nem sempre você paga com dinheiro pelo uso destas tecnologias, mas você paga. Lembrando que são esses CEO's e IA, claramente um bando de sociopata, quem dizem que elas deviam substituir as democracias do mundo e decidir o que é melhor para nós. Essa migalha de "acesso" vem com um custo bastante alto.

 

Mas para quem usa? 

Em termos de quem usa essas tecnologias (eu uso também, para me ajudar a traduzir textos, para traduzir cosias de uma linguagem de programação para outra que eu possa entender alguma função, por exemplo), o que deve acontecer muito em breve será: para quem pode pagar, IA parruda, par quem não pode, IA que gera material de segunda, terceira categoria. Para as massas, e me incluo nessa, IAs mais fraquinahs que geram cosias mais "falhadas". Isso inclusive vai ser (se já não o é) proposital para assim valorizar os pacotes pagos, não é mesmo? Quem vai querer pagar pela IA se um modelo "gratuíto" faz a mesma coisa?

  

O custo estético: 

Além disso, existe outro custo estético: baixar o nível das produções para baratear o custo daquilo que é vendido para as grandes massas. Isso não é novo na indústria cultural. As produções vão se tornando mais caras por conta do investimento que é preciso fazer em propaganda, então se tenta baixar custos na produçã ode músicas, filmes, games, cortando nas partes criativas e artísticas. Muito se fala do quanto os roteiros de filems pioraram nas últiams décadas. Ou no quanto a indústria dos games evita o risco da inovação. Mesmo na música. É preciso "reeducar" o gosto das pessoas para aceitarem a "estética de IA" como produto tentável e a industria explorar comercialmente.

 

Uma operação cultural já manjada: 

Nas últimas décadas se baixou o nível de qualidade desses produtos culturais. Mas isso foi feito com muito investimento em marketing, para assim "acostumar" o público com esse novo nível de qualidade. "Nivelar por baixo" é a expressão que se usa. Acho que agora com a produção de "cultura para consumo" se utilziando de IA vamos ter mais uma nivelada por baixo. Trabalhar de graça para a indústria nessa tarefa de acostumar as sensibilidades estéticas com o que a IA consegue gerar é a tarefa de quem usa "de graça" essas ferramentas, devemos ter clareza disso.

 

Valorizar produção humana por princípio ético e político: 

Na arte, seja games ou o que for, eu vou seguir valorizando a produção humana. Se o produto utiliza imagens, músicas, roteiro e texto de IA, eu honestamente não quero valorizar. Se é um game, e foi feito com a "varinha mágica" da IA, que a pessoa escreveu um “prompt” e cuspiu o jogo inteiro, eu vou sim chamar de lixo. Existe uma questão política e social, além de estética e ética, por trás disso.

  

Acesso á criação é outra coisa! 

Fora isso, eu como artista e professor de artes de formação, sempre valorizei os processos. Eu criei metodologias próprias para conseguir fazer turmas de alunos em escolas criarem juntos histórias em quadrinhos e games, do começo ao fim, em processos que levavam meses. Sempre fui a favor do acesso á prática de se criar arte, mesmo que você não viva como artista. Mas fazer arte é bom não só pelo resultado, mas muito mais pelo que o processos faz por nós. Fazer arte te humaniza e te abre horizontes. Mas mandar uma IA fazer arte, não é o mesmo que fazer arte. Aí é o contrário que acontece: você se "robotiza". Devo também, como professor de formação, dar o exemplo.

 

O "processo" com IA: 

Mandar a IA criar uma arte é um novo tipo de processo, que nada tem a ver com criar arte. Realmente acho que é um processo que não humaniza, pelo contrário. Você nem tem agência sobre o que é criado. Digite o mesmo prompt duas vezes e a IA vai lhe cuspir dois produtos diferentes. Estas IAs (sic) são programas probabilísticos, não determinísticos, então existe um fator "randômico" do que ela cospe. Você tem de fazer a solicitação á IA (sic) e "torcer" para sair algo que lhe agrade. Não é um processo onde você faz escolhas, pelo contrário.

 

O processo humano: 

Já o processo humano de criação é repleto de escolhas. "A, mas eu não tenho acessos a ferramentas avançadas de edição". Bom, foi por esse motivo que as pessoas inventaram a estética do Zine, do Cordel, por exemplo. Nossos limites, e suposta falta de acesso, são também motores da criatividade por que nos forçam a fazer escolhas. Escolher os materiais entre aquilo que temos acessível, é o que faz pessoas desenharem com caneta esferográfica (já fiz muito isso). O processo de criação humano é repleto de "agência", de escolhas, e é isso que nos humaniza. A “falta de acesso” não impedia pessoas (e eu era uma dessas) de fazer e criar de forma inventiva.



Desenho que fiz com esferográfica, provavelmente no trabalho (office boy), em 1998.


Em resumo: 

Se a pessoa usou IA para lhe ajudar em certos processos, eu estou de boa, por que entendo que a ferramenta está aí, e essa é a sua dimensão de "acessibilidade". Então, eu concordo que a IA torna executar certos produtos culturais mais acessíveis, mas até certo ponto. E ao fazer, ela também faz outras coisas, como eu expus. E, ironicamente, também torna mais "inacessível", já que afasta as pessoas dos processos humanos de criação. Ou seja, a IA lhe aproxima do produto final, numa relação análoga a de um consumidor, e lhe afasta do processo humano de criação. Quem "cria" usando a "varinha de condão"  está na verdade mais "consumindo IA", e menos criando. Essa máxima de que "IA torna criar arte mais acessível" me soa então muito mais como slogan a favor dos intresses mais amplos destas empresas de tecnologia. Não caia nessa.



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