terça-feira, 29 de setembro de 2026

A lógica manipulativa de redes sociais e IAs...


Virando a chavinha.

Ontem, 28/09/2026, eu senti uma "chavinha" virando na minah cabeça. Eu bem sei que tenho certa rigidez de pensamento, eu demoro pra me convencer de que algo deixou de ser o que era. E dessa vez isso se aplica às "redes sociais", que de fato, já a algum tempo, deixaram de ser efetivamente "redes sociais". Mas eu agora estou no processo de construir uma postura diferente diante desses espaços virtuais.

Assim foi com a TV.

Eu não passei anos me reeducando para não ser escravo da TV para terminar como escravo de plataformas digitais. A geração anterior, de meus pais, e mesmo a minha em certa medida, se tornou viciada em TV. É aquela coisa, a TV está semrpe ligada num canal, diariamente mandando "Informação", e assim formando, reformando, deformando as pessoas. Eu tenho aparelho de TV em casa, mas eu se quer tenho antena que funcione. A uns 15 anos que eu não sei o que é ter a TV ligada todos os dias, na verdade, muito raramente (nem uma vez por ano) o aparelho está ligado em algum canal de TV. Isso foi algo que cultivei conscientemente, tento o contra exemplo do mundo ao meu redor.

Nada que não possa piorar...

Mas não há nada ruim que não possa piorar. Agora as pessoas podem não ser escravas da TV, ou não apenas da TV, mas são escravas das plataformas digitais. E eu também o sou, mas agora decidi me reeducar. E digo que piorou por que a TV, antes, precisava criar um discurso generalista:ela falava com uma média de público, ou em diferentes programas mirava em segmentos de público que também eram médias e idealizações. Isso deixava uma margem maior apra os indivíduos se descompatibilizarem com a manipulação da TV. Mas agora, sob a lógica da vigilância algoritmica, o "conteúdo" é personalizado para cada indivíduo. O potencial de "entrar na mente" e manupular os comportamentos a nível individual estrapolou em muito aquele mais generalista da TV. Como mais uma realização do sonho perverso do neo-liberalismo nós formos de um tipo de comunicação distorcida mas voltada para o coletivo para uma tanto quanto distorcida mas voltada para o indivíduo.

Antes "zapear" pelos canais, agora rolar feed...

Exatamente essa imagem. Eu não queria me tornar um velho sentado no sofá zapeando entre canais. E agora, não quero me tornar um velho que fica fazendo "doom scrolling|", rolando feed de plataforma digital eternamente. Pessoalmente, eu me sentia "manejando" algo no limite de um vício, nos últimos anos. As vezes quase me viciando em rede social, percebendo, dando um passo atrás, mas nunca me livrando do problema. Mas agora definitivamente cansei de doar energia para isso.

Pegando pelas fraquezas

Por quê viciamos nas plataformas digitais? Tem aquele lance da dopamina barata, mas não é só isso. Esse "conteúdo personalizado" é programado para mirar em nossas "fraquezas". Somos todos humanos, temos nossas preferências, e diria até nesses termos, vícios e fraquezas, coisas idiotas ou até prejudiciais a que somos individualmente sucetíveis. Discurso de ódio, opniões com as quais nos debatemos, "vídeo-cassetadas", vídeos de pets, vídeos de desgraça, ou mesmo "soft porn" de Instagram. O programa (lembrem, isso é um programa, é programado) registra todas as nossas ações (e até não ações), nossos audios, mensagens, habitos de compras, etc. Uma hyper vigilância para direcionar conteúdo, propagandas, e iscas de vício personalizadas para nos reter nessas plataformas digitais.

Minha relação com plataformas digitais daqui pra frente...

...vai ser de tratar elas como o que realmente são: espaços de propaganda. Minha postura vai ser agora bem mais seca e utilitária: divulgar meus produtos, meus jogos, e aquilo que lhes diz respeito. A maior parte do conteúdo que já nos aparece nessas redes são propagandas, declaradas ou veladas: slogans e conteúdo viciante para lhe prender áquele espaço virtual. Não é mais espaço de compartilahr experiências com amigos. É por ter finalmente me convencido disso que eu desistalei todos os apps de "redes sociais" de meu celular. Vou usar elas apenas no PC, meu lugar de trabalho, e não vou mais acessar quando estiver fora de casa, passeando, em lazer, ou seja, fora do "trabalho". 

Recuperar a capacidade de foco.

Vou ativamente cultivar habitos para recuperar minha capacidade de foco, em especial de leitura e reflexão, algo que eu percebi degradar nos últimos anos. Voltar a ler literatura com mais frequência,  assistir a um filme interessante, sentar e jogar um game, ou simplesmente "sentir tédio". A muito tempo que eu não sabia o que era sentir tédio. Hoje pela manhã acordei, peguei o celular, e lembrei que não tinha mais o app do Instagram ali. Eu senti tédio, e isso foi libertador.

E repito, não são mais redes sociais...

...não mesmo, se é que um dia o foram. Tivemos tentativas de redes sociais na internet, mas tudo descambou nisso: espaços com memes e vídeos curtos para prender a atenção das pessoas enquanto roubas suas informações, padrões e hábitos, enquanto usa isso para direcionar mais propaganda e mais conteúdo viciante para reter você naquele lugar. Nesse sentido, as tais redes sociais são mesmo algo mais própximo à TV, só que de maneira mais perversa, por que "customizado" para você e suas fraquezas. Não por acaso, esta é a mesma lógica que se desenha para a propagação do consumo de IA's na cultura.

Sim, de novo, falando de IAs, mas é preciso.

Está claro que o objetivo com estas IAs, no espaço que elas devem tomar dentro da indústria cultural, é oferecer um "produto de esperiência customizada a cada indivíduo". Vai funcionar (ou já vem funcionando) assim: o indivíduo vai lá e pede para a IA gerar um filme, uma série, um game, um album musical, personalziado para ele. Pode ser uma porcaria de produto cultural, mas aquilo vai pegar nos "pontos fracos" da pessoa, naquilo que vai lhe prender e viciar. Ela, a pessoa que "gera" oconteúdo com um prompt, é na verdade oconsumidor final daquilo. Agora, imagine as possibildiades de manipulação comercial e ideológica de um mundo onde isto se torna a norma.

Esse é um dos destinos...

...onde as Big Techs querem chegar. Poder de direcioanr seu voto, suas preferencias políticas, ética, moral, através de conteúdo direcionado especialmetne apra você. Uma máquina de criar perfís psicológicos de cada indivíduo e saber exatamente quais estratégias personalizadas usar para incutir nela suas mensagens e agendas. Isso é muito poderoso, e totalmente irresistível. É também a morte da arte e da cultura: se antes a arte, um filme, música, etc, era feito como uma expressão artística, uma linguagem, visando se conectar e comunicar com diferentes pessoas, agora isso cessa por completo. A comunicação, a troca de experiências, pela arte, se tornam coisa do passado ou de poucos, ao menos no consumo da indústria cultural. É um futuro totalmente distópico, mas está aí à nossa porta.

Sou pessimista, mas...

...mas pelo menos não quero isso para mim nem para aquelas pessoas com quem eu ainda possa dialogar. Prefiro me afastar dessa lógica o máximo que me for possível no momento, cuidar bem do meu cérebro, e ter na arte uma forma de dialogar experiência com outros seres humanos. Ou seja, não me deixar escravizar diretamente por essas plataformas. Indiretamente eu não vejo escapatória, eu vivo no mesmo mundo que as demais pessoas, e sou afetado de alguma forma. Mas quero pelo menos tomar certa distância e "cultivar meu espírito". Ainda bem que, finalmente, senti a chavinha virar dentro da cabeça.




Fragmento da revista em quadrinhos "Watchmen"




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